segunda-feira, 21 de maio de 2012

Que "eu" é esse que se vende?

Faz um tempo eu venho pensando (e me indignando) com o que tenho visto do universo da deficiência. São palestras motivacionais, livros de auto-ajuda e todo tipo de discurso que nos remete à ideia de sermos (os deficientes) seres extraordinários. Sem dúvida fugir de certas polêmicas acaba se tornando um caminho bastante cômodo, mas, como a palavra comodista me incomoda bastante, decidi pedir a companhia do Eduardo Martins (o famoso Dudé - vídeo abaixo) para mexermos nesse “vespeiro” juntos. E qual seria esse assunto tão velado, tênue e perigoso? Sempre que eu e o Dudé conversamos sobre a maioria das palestras que vemos espalhadas na internet, ou nos livros lançados por aí (que deveriam ficar na prateleira da pieguice), constatamos uma “coisificação do deficiente”. Então, a grande questão para esse post é: “Que ‘eu’ é esse que se vende?”

O que vemos em palestras, matérias da TV e em alguns livros, é uma postura “coitadista” ou heróica do deficiente. Historicamente falando, já ocupamos a posição de vilões, dignos de toda indiferença da sociedade. Já fomos escondidos e rejeitados. Hoje a visão da deficiência perpassa a piedade e o heroísmo. Comumente somos taxados de "exemplo de vida" ou "superação”. Mais que isso: são os termos utilizados por alguns deficientes para se definirem, porque é essa a postura que adotam no dia a dia. Então como as pessoas vão pensar e agir de outra maneira conosco se nós mesmos nos intitulamos e agimos assim?

Mas pensemos: o que faz um deficiente ser exemplo de vida? Ele seguir sua vida adiante após uma mudança drástica (e muitas vezes traumática), no caso daquele com deficiência adquirida, que após sua reabilitação vai tratar de cuidar de seguir em frente, pois a vida continua? Ou no caso daquele que tem deficiência congênita e tratou de se adaptar ao máximo a um mundo para tocar sua vida adiante? Exemplos? De quê?

Analisemos agora a pessoa sem deficiência: aquela que também tem que batalhar pelos seus objetivos, que  acorda cedo como os deficientes, que usa o transporte público lotado e em péssimas condições como os deficientes, que chega em casa tarde e cansada depois de um dia de trabalho como os deficientes. Essa pessoa também se supera? Superar, no dicionário, significa “ultrapassar, vencer, sobrepujar”, ou seja, as pessoas superam, vencem ou ultrapassam uma doença, mas os deficientes não vencem suas deficiências, apenas reinventam e adquirem um modo peculiar de viver a vida com ela.

Em ambos os casos, as pessoas escolhem lutar (ou não) por uma vida digna (seja ela como for) independente de ter deficiência ou não. Sim, as pessoas batalham e procuram alcançar seus desafios pessoais com ou sem deficiência. Não há nada de mágico no fato de eu e o Dudé termos feito faculdade e sermos pessoas com deficiência, a não ser pelo fato de estarmos numa estatística onde uma minoria da população em geral tem acesso ao ensino superior, por exemplo. O que temos que discutir são as razões econômicas, educacionais, sociais, arquitetônicas, políticas ou de qualquer outra ordem, que não garantem acesso a TODAS as pessoas às universidades de maneira proporcional – inclusive as que possuem deficiência.

A postura “coitadista” ou heróica de muitos deficientes nos revela uma atitude contraditória. Contraditória porque o que se exige é uma equiparação de oportunidades, mas o que se mostra é uma posição inferior (coitado, vítima) ou superior (herói, especial). Sempre que um deficiente topa fazer uma matéria piegas e recheada de sensacionalismo com o intuito de comover o público ou um texto/palestra/livro dizendo: “Olha, se eu faço, você também faz!”, ele lança uma ideia absurdamente disciplinadora, como se todas as pessoas tivessem que dar conta de qualquer recado (no trabalho, nos estudos, na vida sentimental) já que o deficiente (o coitado ou o super-herói) consegue.

Cada vez que um deficiente fala "Olha, olha! Eu faço igual a todo mundo! Eu me superei, sou um exemplo, sou o bom, o abençoado!", ele está apenas provocando à sociedade a trocar a máxima preconceituosa "Tadinho, ele é limitado, incapaz e inútil!" para outra retórica preconceituosa: "Tadinho, olha como ele se esforça pra ser como a gente!". Em que isso ajuda a derrubar estereótipos, preconceitos e barreiras, os principais obstáculos da tal inclusão? Em nada! É impossível combater o preconceito trocando um estereótipo por outro. Aliás, quando os deficientes forem vistos como pessoas em sua plenitude, nem o termo “inclusão” fará sentido, pois ninguém pode ser incluído num universo onde todos somos únicos e diversos.

O que vemos são tentativas de "atos de heroísmo" ou de vitimização em certos deficientes. Atos esses que resultam nas chamadas palestras motivacionais, livros de auto-ajuda, etc. Mas será que é isso mesmo? Será que essa é uma visão de si mesmo enquanto pessoa com deficiência ou talvez esse não seria, digamos, um mercado de estereótipos? Será que o “coitadismo” ou heroísmo não se tornaram marketing pessoal de muitos deficientes?

Há dezenas de pessoas com deficiência que vivem da comercialização de autobiografias, palestras, etc. O que se discute aqui não é o modo de ganhar a vida – Dudé e eu, por exemplo, já demos palestras, entrevistas, escrevemos em blogs, etc, embora nunca tenhamos ganhado um centavo para isso até aqui e não teria nada de errado em ganhar – mas nos questionamos com frequência a respeito do CONTEÚDO dessas práticas.


Embora possa parecer radicalismo, acreditamos que vender a imagem de “superação” em troca de notoriedade e alguns cachês, é irresponsável e leviano; é desconsiderar todos aqueles que se esforçam e se dedicam para mudar uma maneira retrógrada de pensar da sociedade. O que eu, Dudé e um monte de gente (interessada em dizer o que realmente importa) apenas deseja, é que sejamos vistos como pessoas, com direitos e deveres, sem a bajulação de ser “especial” ou o menosprezo de ser “coitado”. É matar a curiosidade das pessoas em relação aos nossos limites, de uma maneira leve e bem-humorada e não que isso se torne motivo pra dizer que somos melhores ou piores que os não-deficientes. É dizer que as pessoas são diversas... altas, baixas, gordas, magras, brancas, pretas, pardas, ocidentais, orientais, com ou sem deficiência. Simples assim!


É inegável que conseguimos muitos avanços no que diz respeito aos nossos direitos. Porém, muito ainda há de avançar para chegarmos ao ponto que queremos e merecemos. Afinal, foram anos de erros e acertos. E aí existe a necessidade de se verificar o que deu errado e pontuar o que está dando certo. Acalenta-nos ver gente bacana dizendo por aí o que realmente interessa, tais como algumas delas que destacamos nos vídeos desse post: Jairo Marques, Flávia Cintra (vídeo acima), Alessandro Fernandes, Lak Lobato, Tabata Contri, Márcia Gori, Aimee Mulins, Adelino Onozes, etc. O que esperamos é que não haja mais espaço (e paciência) para ouvir alguém dizer que viver é um desafio  só porque “nasceu com” ou “adquiriu” outra condição de viver o mundo. O que almejamos, é ver gente dizendo que cansou de viver à margem de seus direitos e que hoje grita, mobiliza, escreve, atua para que todos nós, deficientes ou não, sejamos vistos de igual para igual. Sem muros, sem a troca de estereótipos. Existe a necessidade de proliferarmos a idéia do "nem acima, nem abaixo, mas no mesmo patamar" dentro de uma discussão madura e com conteúdo. E você, que “eu” é esse que vende?

Escrito por Karla Garcia e Eduardo Martins.

* Para os cegos: na imagem da postagem há alguns bonecos coloridos no formato da figura humana dando as mãos uns aos outros, inclusive um cadeirante.

19 comentários:

  1. Pabline..

    Olha prima temos varios tipos de deficiencias mais a que acho mais grave é se fazer de vitimas de situação e ocasiões, sem pensar que isso pode ser uma oportunidade para evoluir o que seria de vida se não fossem os desafios... amei o texto como sempre curto e grosso.

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    1. Pá, que bom que vc gostou e tbm compartilha desse pensamento.

      Beijos.

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  2. E essas fotos de exemplo de superação que colocam no facebook, com uma foto de uma criancinha com alguma doença ou deficiência sorrindo, com a frase "Se ele pode rir, você está reclamando do que?"
    Sempre me dá uma vontade de xingar a mãe do infeliz que fez essa gorfante montagem!
    Cara, só quero respeito, não quero aplausos, louvação ou regalias. Respeito já basta.
    Lindo texto. Beijocas

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    1. É isso aí, Lakinha!! Tamo junto!
      Obrigada pelo recadinho.
      Beijos.

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  3. Textasso. Parabéns Kaká e Dudé...

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  4. Antes de qualquer coisa, gostaria de dizer o quanto foi prazeroso expor minhas ideias nesse texto, num assunto que sempre considerei de suma importância, mas que sempre é deixado em segundo plano.
    Existe uma música de uma banda chamada Triumph entitulada Ordinary Man, cujo início diz assim: "Olhe pro espelho e me diga o que vê. Você pode mentir pra si mesmo, assim como mentiu pra mim?". Muitos deficientes que se julgam super-heróis deviam ouvir essa música, antes de iniciar uma palestra contraditória e estereotipada.

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    1. Du, obrigada pela tua contribuição. Teus desabafos me ajudaram a organizar as ideias que compartilho contigo.

      Bj.

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  5. Muito bom o texto! Interessante o ponto de vista... Dá uma boa reflexão! Bjos, Nanda Ludwig

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    1. Nanda, que bom que provocamos a reflexão. Esse é o objetivo desse post.

      Me passa seu email, descobri que minha mãe tem um cliente com sobrenome Ludwig...rss

      Beijo.

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  6. Ká, alguns trechos levantam reflexões tão profundas, que fiquei revisando metalmente algumas ideias que tenho escrito, para ver se não cometi algum desrespeito - involuntário, pode ter absoluta certeza - às pessoas com deficiência. Depois que meus textos começaram a chegar a um grupo maior de pessoas com deficiência, tenho feito um exercício constante de "correcão" dos meus conceitos, na busca contínua por oferecer a todas as pessoas (com deficiência ou não) o meu total respeito. Comecei buscando reaprender o meu vocabulário, para eliminar termos depreciativos ou que superestimem as pessoas com deficiência. Em seguida, comecei um policiamento na divulgação das minhas ideias, compreendendo que textos têm o potencial de ser absolutamente influentes e multiplicados, quando conseguem transmitir corretamente algo que as pessoas desejam dizer. Por fim, procurei reformular a minha relação com o meu próprio filho, ele também uma criança com deficiências, mas que não pode ser endeusado, sob risco de minar minha capacidade de educá-lo ou mesmo repreendê-lo quando preciso. Confesso que todo este exercício tem me exigido grande esforço, mas também tem me trazido um enorme aprendizado. Obrigado por ajudar a iluminar meus caminhos. Verei os vídeos da Flávia Cintra e do Dudé com calma, certo de que por ali aprenderei ainda mais. Grande beijo.

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    1. Fábio, kerido! Adorei seu comentário e se provoquei esse momento de reflexão em ti, tudo que escrevi já valeu a pena. O que quero te dizer é que eu também tenho certeza absoluta que, caso tenhas escrito qualquer vocabulário que não usamos, não foi voluntário. Eu sei que vc está aprendendo, eu também estou. Todos estamos (ou deveríamos, rs). Acho que vc tem se saído muito bem, como blogueiro e pai raro de um filho raro - tanto que eu me sinto absurdamente feliz e encorajada em todas as vezes que leio teu blog (ainda que haja um quadro do Iberê Camargo ; )).
      Um beijo.

      Ps.: mas que deve ser difícil repreender o fofo do Tom Tom, isso deve... rs.

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  7. Ka,

    Leio sempre seus comentarios no bolg Flizam. Minha filha Fernanda foi quem me recomendou a leitura deste texto. Ufa, puxa,que texto ! Lerei novamente e mais vezes para aprender contigo como devemos ver as diferencas. Muitooooooooooooo bom. E...como voce eh bonita ! Por fora ! e agora vejo que por dentro eh mais ainda. Abracos e abracos.

    Neiva

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    1. Pára tudoooo!
      A senhora é vó do Tom Tom?
      Que honraaaaa tê-la por aqui. Bem-vinda!
      Dona Neiva, muito obrigada pelas palavras. Fico contente que tenha refletido a partir do texto. Quanto aos elogios, vou aproveitar a "vantagem" e perguntar se a senhora não deixa eu casar com o Tom Tom daqui umas duas décadas... rs.
      Volte sempre, viu? Sou fã da sua família.

      Beijo grande.

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  8. Ká,

    Sou a vó do Tom Tom e pelo jeito sua futura sogra !

    Beijos

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  9. Oi querida,sabe eu penso em algumas coisas como vc,eu já dei palestra na escola da minha filha,nunca ganhei em termos de grana,mas fui no sentindo não de ser a heroína e tal, até porque tem muita gente que é,mas o fato que eu ter me acidentado de carro,todo mundo alcoolizado,e sempre a gente acha que nada vai acontecer...Eu tento passar que misturar alcool com a direção acaba dando merda!!Eu tento alertar alguns jovens sobre o assunto,mas já teve gente que falou pra mim cobrar e tal dar palestras de auto ajuda,mas acho que não é pra mim,ajudar alertas alguns jovens por aí acho super importante,mas ir além ,tem muito mais deficientes que faz mais coisas que eu.E eu tenho raiva quando alguém vem me dizer pra dirigir ou voltar pra faculdade ,mas esquecem de perguntar se eu quero,entende?Porque sou cadeirante tenho que fazer monte de coisa pra mostrar quem sou..Sou feliz assim cuido da minha casa,meu marido e da minha filha.As vezes as pessoas acham que quero ser super herói kkkk,tenho blog porque adoro colocar tudo que vivo e vejo por aí,como tu disse a gente não ganha nada com isso mas ganha prazer em fazer..bjss querida,adoro teu blog!!

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    1. É isso aí, Aldrey. Informar é preciso!

      Beijo e obrigada pelo carinho de sempre.

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  10. Muito bom mesmo o texto. Parabéns!! Adriano

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    1. Mestre, muito obrigada!
      Nossa última conversa no Núcleo serviu-me de inspiração... rs
      Abraço.

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