sábado, 26 de maio de 2012

Fotógrafo ou palhaço...

Nesses 2 anos de existência do blog já parei para pensar algumas dezenas de vezes o quanto foi acertada minha decisão de criar um espaço para hospedar minhas vivências. Lá no começo, eu não tinha a mínima pretensão de me tornar uma celebridade (continuo não tendo esse objetivo), muito menos poderia imaginar que em tão pouco tempo tanta koisa boa viria e que conheceria tantas pessoas incríveis através de uma ferramenta virtual. De fato, de lá pra cá, minha vida mudou significativamente - para melhor. Curei muitas feridas, passei a me dedicar mais ao meu trabalho, adquiri nova consciência enquanto deficiente, aprendi a lidar melhor com os erros, amei de novo e o mais bacana: algumas pessoas que conheci em blogs tornaram-se tão importantes e presentes (ainda que nunca tenhamos nos visto oho no olho) que passei a pensar nas minhas koisas através da leitura das koisas delas. Além disso, passei a dividir os nomes, as histórias, as angústias e alegrias delas, principalmente com mamãe.  

Mesmo desconhecendo o universo dos blogs, do Facebook e koisa parecida, mamãe já conhece, emociona-se e delicia-se quando conto histórias dos blogueiros, em especial do Flizam. Para quem ainda não o conhece (e não sabe o que está perdendo), Flizam é o apelido do Fábio Ludwig, um gaúcho morador de Brasília, marido da Ana e pai do Antonio que nasceu com uma síndrome rara. O Fábio não é só o pai raro de um filho raro, mas é também um escritor raro. Sou fã de carteirinha. Leio o blog do Fábio toda semana, me preocupo quando o Antonio fica doentinho e tenho vontade de mordê-lo só em ver as fotos, rio e choro lendo os belíssimos textos e, de quebra, tento entender como é ser pai de um bebê com deficiência. Lendo e contando a história da família Ludwig, eu consigo aproximar a mim e à mamãe das vivências que meus pais também tiveram quando eu nasci. Outro dia, contei para mamãe que o Fábio havia escrito um post sobre fotografia com o título: Um grande fotógrafo. Leia você mesmo na íntegra. É brilhante. Para ela, detive-me a contar o trecho engraçadíssimo que encerra o tal texto:

"Há algum tempo, minha sogra estava com o Antonio no colo, quando dois garotos com cerca de oito anos se aproximaram e perguntaram:

– Quantos anos ele tem?

Ela respondeu:
– Dez meses.

Observando o estrabismo do Antonio, um dos garotos não conteve a surpresa:

– Nossa! Só dez meses e já consegue imitar olho de vesgo direitinho?!

Morri de rir quando me contaram esta história. Foi apenas um instante. E poderia ter passado em branco. Mas o olhar inocente do menino registrou o momento para sempre. Se este garoto conseguir preservar a sua falta de preconceitos e continuar a ver o mundo com uma perspectiva diferente da maioria, que grande fotógrafo o mundo ganhará."

Esse trecho, contado por mim com todo meu talento de interpretação (ô!), fez mamãe cair na gargalhada e lembrar de um episódio interessante: quando eu tinha uns 6 anos, fomos à uma feira, tipo festa das flores, da maçã ou qualquer koisa do tipo, em outra cidade. Naquela época, eu ainda usava os aparelhos ortopédicos tipo os do Forest Gump e vesti calça para ir ao tal passeio. As órteses ficaram cobertas pela roupa e sempre me renderam um andar muito "séchi" como o do Robocop. Lá pelas tantas, um moço fantasiado de palhaço começou a andar atrás de mim, me imitando. Meus pais, surpresos, deixaram a cena rolar para ver o que eu ia fazer. Entrei no clima, dei risada e continuei andando mesmo com a presença do marmanjo me imitando. Depois de um tempo de brincadeira, o rapaz percebeu que não estava brincando, eu realmente andava daquele jeitinho. Digo, eu estava brincando sim e me divertindo muito, mas não do modo como o moço almejou. Quando ele percebeu que eu era deficiente, ficou muito, mas muito envergonhado mesmo. Mamãe, que é a pessoa mais educada que conheço, ficou extremamente sensibilizada pela gafe do palhaço (sem trocadilhos). Já papai caiu na gargalhada e tentou acalmar o moço (que só faltou chorar e não sabia onde enfiar a cara tão maquiada). Foi um episódio que nunca esquecemos.

O que quero dizer é que, relendo minhas postagens, pode parecer que desde que nasci tudo sempre foi fácil, seguro, tranquilo e maravilhoso. Entretanto, todo mundo pode imaginar (ou sabe) como é perturbador receber um filho com deficiência. Mamãe é ligeiramente dramática, ansiosa e tem um medo absurdo de magoar as pessoas. Papai é o caminhão da paciência. Enquanto mamãe descabela-se ao ver o mundo cair, papai, com cinco piadas e toda competência de construtor, arranja uma maneira de sustentar os pilares do planeta. Com certeza, meus pais tiveram suas angústias, suas revoltas, suas fraquezas, suas dores - assim como o Fábio já teve, mas o mais interessante é que só lembro do modo como eles me ensinaram a encarar com leveza a questão da deficiência, ainda que aparecesse numa gafe dos outros. O bom humor é um dispositivo muito eficaz para tornar familiar o que até então era desonhecido, um mito - inclusive a deficiência. Se, até pouco tempo, éramos alvo de chacotas, hoje são os próprios "malacabados" que fazem piada da sua condição, né não? Por isso fico orgulhosa e aliviada de ver que outros pais estão tendo e dando possibilidade para que seus filhos deficientes e outras pessoas percebam/façam graça das suas limitações e características tão peculiares, sejam elas fotógrafas ou palhaças. Naquela ocasião com o palhaço, eu aprendi a fazer palhaçada pra vida inteira!

Dedico esse post ao pequeno Antonio ("Tom Tom" para os íntimos da internet, como eu).

Todo karinho aos Ludwig.

* Para os cegos, a descrição: na primeira imagem há um fotógrafo agachado. Na segunda imagem há um rosto em preto e branco destacando um nariz vermelho (característica principal dos palhaços).

8 comentários:

  1. Ooiiieee Ka
    Fui o 1° a ler!
    Heeeeeeee!
    Entre fotos e palhaçadas vamos vivendo... e bem!
    Curta que a vida é curta!
    Bjão e parabéns

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    1. Isso aí, Sergio!!
      Obrigada pelo recadinho.
      Bjos.

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  2. Obrigado por esta homenagem, Ká. Fico extremamente feliz em tê-la como leitora, divulgadora e amiga. É uma alegria (um alívio, na verdade) encontrar espelhos para as experiências que estamos passando. Faz a gente não se sentir sozinho. E é muito inspirador ver que outras famílias, como a sua, encontraram formas positivas de enfrentar os desafios da deficiência. Grande beijo, Fábio Ludwig

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    1. Fábio, não me agradeça. Vc sabe, é de coração. Acompanhar teu blog, tua história, teu filho me torna uma pessoa melhor.

      Beijão.

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  3. Awnnnnnnnnnnnn.. Como sempre Kazinha de my life escrevendo coisas lindas.. E tenho que agradecer duplamente: por me proporcionar uma leitura sempre gratificante e sob a ótica de uma deficiente física, e por me mostrar o blog do Fábio. Foi aqui, pelo seu espaço que conheci o espaço dele e simplesmente adoro!

    Eu acho que encarar qualquer problema ou dificuldade ou surpresa na vida com leveza e senso de humor é o melhor remédio para as angústias, dúvidas e medo que vem junto com tudo isso... Acho que ver a coisa como ela realmente é, ajuda e muito todos os envolvidos.

    Não subestimar ou não superestimar o que quer que seja, é um comportamento saudável tanto para o deficiente quanto para quem convive com o deficiente.

    Não tem problema nenhum em perguntar o que aquela pessoa deficiente tem, o problema surge quando a deficiência se torna a essencia do problema e não apenas uma pequena parte de um todo.

    Lidar com dificuldades faz parte da vida de qualquer pessoa. Seja ela deficiente física ou não. Isso se chama viver. Period..

    Tá parei! kkkkkkkkkkkkk... Bjos mil no seu coração..

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    1. Polly, keridaaaaaaaaaaaaaaa!
      Obrigada pelo comentário. Adorei - como sempre adoro o que vc escreve! Concordo com cada palavrinha que vc disse sobre o lidar com as dificuldades, viu? É isso aí!

      Ps.: mas o Tom Tom é um fofolete, né?

      Beijo grande.

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  4. Ká !

    Sei lá se foi intuição, mas a verdade é que vi nos comentários no blog do Fábio que virás a Brasília em dezembro. Venho então ao seu blog para dizer que eu gostaria tanto de conhecer a minha nora !

    E que surpresa. Ao iniciar a ler percebi que o recente post era para o meu querido neto Tom Tom. Fiquei emocionada com tão belas palavras que dedicas a ele e aos pais. Fico feliz, também, em perceber que tens boas e generosas mãos, seus pais, que te apoiam e ajudam a entender este mundo tão complicado.

    Tô no grupo de te conhecer com a Nanda Ludwig, minha querida filha.

    Grande beijo.

    Neiva

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  5. Vó Neiva, muito obrigada pelo seu comentário. Nós, vcs, todos, estamos numa só direção: a da igualdade entre as pessoas. Fico feliz que tenha gostado do post. Os Ludwig merecem! ; )

    Olha, acho que meu título é 'neta' e não 'nora'. Certo? hahahah... Mas a senhora tbm mora em Brasília? Vamos nos encontrar sim, clarooo. Quero muito conhecer todos vocês e, principalmente, dar uns beijos no Tom Tom... ahahah...

    Beijão e até 02/12, hein?

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