segunda-feira, 9 de abril de 2012

Conviva!

O fato de ter deficiência sempre rendeu-me boas histórias, principalmente com crianças. Recentemente, nos reunimos para almoçar na casa da tia Alice. Encontrar-se para a comilança nos fins de semana e em datas comemorativas é um hábito da família Luiz e esse seria apenas mais um almoço, não fosse pela surpresa que recebi. Na porta da casa da tia Alice há um pequeno degrau de uns 2cm - que dou conta de subir tranquilamente. Ao chegar na varanda e me aproximar da porta, o Artur (que é filho de uma prima), me viu chegando. Sem que ninguém esperasse aquela reação, ele correu até a porta e, de frente pra mim, esticou as duas mãozinhas no intuito de me ajudar a entrar. Mesmo não precisando da ajuda, eu dei as mãos para ele e deixei que ele me ajudasse. Obviamente ficamos todos atônitos com tamanha percepção de uma pessoinha de apenas 2 anos. De lá pra cá, em todas as vezes em que ele percebe que estou perto de uma porta ou querendo levantar de um sofá, ele já diz: "Me dá a mão, Kaká!"

Além disso, o Artur já ensaia falar em LIBRAS com a tia Rosane, que é surda e madrinha dele. Tenho percebido que, assim como aconteceu comigo, os conceitos de inclusão e preconceito farão pouco sentido para o Artur. Estar com pessoas com deficiência e respeitar as diferenças será algo tão natural para ele, assim como foi para mim, para a tia Rosane, nossos familiares e amigos. Afinal de contas, o que é normal? É ser alto, baixo, loiro, moreno, magro, gordo, branco, preto, pardo, oriental ou ocidental? A tal ''normalidade" é muito relativa, e até desnecessária. Quando escrevi o post do Korpo com Ká, enfatizei justamente que não há perfeição para ansear - não para mim, ao menos. Somos todos singulares, potenciais e limitados em algum aspecto. Ou alguém aí tem a arrogânia de considerar-se perfeito? Se até um bebê de 2 anos entende um pensamento tão complexo desse, por que adultos ainda teimam em dar murro na ponta da faca chamada PRECONCEITO? A deficiência é  um risco quando entramos num carro, por exemplo, ou uma condição inerente à vida, que quase todas as pessoas experimentarão algum dia, caso cheguem na velhice. Portanto, não se dê o trabalho de ser preconceituoso(a). Esse sentimento nada mais é do que uma idéia pré-concebida (e até um medinho), quase sempre equivocada, sobre algo que não o(a) levará a nada engrandecedor.

Em todas as vezes em que uma criança fica me olhando no shopping e pergunta "Mãe, por que aquela moça anda daquele jeito?", eu sou o constrangimento de carne e osso para os pais das crianças e acho um barato de ver a cara sem graça deles. Aí eu faço a minha parte: sorrio... e rezo para a Nossa Senhora dos Moçoilas Deficientes que a mãe ou o pai da criança seja minimamente sensível para desmistificar sobre as diferenças entre todas as pessoas, porque, vamos combinar: essa é uma ótima oportunidade para cortar o mal do preconceito pela raíz. Né não? Nos últimos tempos, fala-se mais sobre tecnologias assistivas, sobre os direitos das pessoas com deficiência e essas, por sua vez, vem aparecendo mais nas ruas, no mercado de trabalho, na mídia, etc. No meu ponto de vista, ninguém teme aquilo que conhece de perto, então minha dica é: permita-se conviver com a diferença. Estou aqui usando o Artur como exemplo para falar que 3 ou 4 gerações da minha família - que passaram por diferentes momentos históricos dos movimentos relacionados à deficiência - cultam o mesmo conceito: aquele em que a diferença faz parte da diversidade e do mosaico humano. E lá tem koisa mais perfeita que isso, karo leitor?

Superbeijo!

* Para os cegos, a descrição: na foto da postagem está o Artur, um dos personagens centrais desse texto, com as bochechas e o nariz pintados imitando um coelho.

20 comentários:

  1. "Em todas as vezes em que uma criança fica me olhando no shopping e pergunta "Mãe, por que aquela moça anda daquele jeito?", eu sou o constrangimento de carne e osso para os pais das crianças e acho um barato de ver que a cara sem graça deles." EU RI KKKK VIVO ISSO SEMPRE!! A CARA DOS PAIS DELES, SEM SABER O QUE DIZER KKKK

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    1. É um barato, né não Aline?... rss
      Beijo.

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  2. adoro ler suas "koisas" bjsss

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  3. Ótimo texto Karla, como é bom saber que de alguma forma contribuimos para que pessoas do nosso convivio cresçam respeitando as diferenças.
    Boa semana pra vc.

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    1. Dani-SC, o melhor é perceber que tudo isso é troca, aprendemos e provocamos tbm algum aprendizado.
      Boa semana pra ti tbm! Beijo.

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  4. Lindo!Valeu a pena ler....abraços fraternos: Déia, Téo e Manu

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    1. Déia, nosso papo de ontem me ajudou a finalizar o texto. Obrigada pela troca maravilhosa!
      Beijo em vcs 3.

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  5. PARABÉNS POR SUA POSTURA DIANTE DA "DEFICIÊNCIA"; PENSO DA MESMA FORMA PARA TODOS OS TIPOS DE PRECONCEITOS... PURA PERDA DE TEMPO. UM EXEMPLO: TENHO UMA FILHA MARAVILHOSA DE 13 ANOS QUE FOI ADOTADA POR MIM, AOS DOIS DIAS DE VIDA; MUITAS PESSOAS, QUANDO IAM VISITÁ-LA FALAVAM, COITADINHA.... AQUILO ME DEIXAVA FULA DA VIDA E EU SEMPRE RETRUCAVA,,, POR QUE??? SERÁ QUE VC ACHA QUE NÃO SEREI UM BEM PARA ELA??? ACHO QUE AS VEZES AS VEZES, AS PESSOAS FALAM AS COISAS SEM RACIOCINAR...RSRRSRS MINHA FILHA SABE DESDE QUE TIVE A OPORTUNIDADE DE FALAR-LHE A VERDADE AOS 3 ANINHOS, E CRESCEU FELIZ, SEM GRILOS E CONSCIENTE DO TAMANHO DO AMOR QUE TEMOS POR ELA E DE QUE ELA NÃO SERIA MAIS AMADA DE OUTRA FORMA, DO QUE JÁ É.
    PARA MIM, SÓ EXISTE UM TIPO DE DEFICIENTE... É AQUELE QUE POR QUALQUER MOTIVO, NÃO TEM NEURÔNIOS SUFICIENTES PARA RACIOCINAR.
    TUDO DE BOM PRA VC... SEJA MUITO FELIZ SEMPRE!

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    1. Gigi, tbm tenho um irmão adotivo. Aqui em casa esses velhos paradigmas não existem.
      Obrigada pelas palavras. Volte sempre!
      Beijos.

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  6. Parabéns pelo texto, Karla. Concordo com você que a inclusão é um conceito necessário para contextos em que a regra é a presença das barreiras sociais à participação das pessoas com deficiência. Tomara que essa vivência marque toda geração de seu pequeno primo e que não seja mais necessário falar sobre inclusão.
    Grande abraço!
    Adriano

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    1. Mestre, esse é o lance! Te agradeço por contribuir para o meu crescimento teórico e profissional, além da tua presença como amigo. Só hoje, com a tua orientação e parceria, é que minhas idéias e vivências vêm tomando forma, e é uma alegria poder compartilhá-las.
      Abração.

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  7. Eu gostaria muito de ver meu blog na sua seção KOISAS DOS OUTROS, bjs.

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  8. Ká, acredita que ainda continuo meu laboratório mental do texto sobre a palavra "normal"? Ô coisa difícil de sair. Um dia chego lá. Bj

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    1. Fábio, o normal é nada e consiste em tudo. Depende de quem vê, do quê se vê e a quê tempo se vê.
      Beijão.

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  9. Oi Karla,
    Obrigada pela sua participação em nossa aula na última semana.
    Vocês colaboraram com nosso processo de formação como psicólogos.
    Desejo que sigas trabalhando com paixão pela vida, pela diversidade!
    Abraço
    Iclícia Viana

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    1. Olá, Iclícia!
      Passando o nervosismo dos primeiros 5 minutos, acho que deu pra levar um pouquinho das nossas ideias pra vcs. Depois, a caminho de casa, lembrei de muita koisa que poderia ter sido dita. Mas acho que muitas delas estão espalhadas (ou ainda serão) pelo blog. Volte sempre por aqui!
      Obrigada!
      Abraço.

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  10. Um ótimo texto. Valeu a espera.
    "Ha, se todos fossem iguais a vc...."
    Parabéns!!!

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  11. Olá Karla!

    Acabei de conhecer seu blog através do seu texto no Assim como Você do tio Jairo! Parabéns pelo blog!
    Já está na minha lista de blogs que leio e linkada no meu blog.

    Abrçs

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