quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Eu sonho alto, literalmente!

- Mãe, o que você acha de eu saltar de paraquedas?
- Uma loucura!
- Mas mãe, olha só: o Fabinho Fernandes lá do Rio de Janeiro é tetraplégico e saltou so-zi-nho!
- Mas o Fabinho é doido!
Olhei pra minha mãe com cara de "você não vai me convencer" e ela entendeu o recado. Me falou
- Se você for saltar, não me conte nada antes. Não me fala como, onde, quando e com quem vai. Oh, yeah... como sou boa filha, resolvi acatar o pedido da minha mãe. Na verdade, aquilo era um aviso meu, pois há tempos sou eu que decido o que fazer da minha vida. Além do mais, vou até o fim quando quero alguma koisa e mamãe sabe disso. Pensando bem, foi ela e papai que me ensinaram a ser assim: "se você quer, você consegue. Só depende de ti". É piegas, mas faz todo sentido. Afinal, a vida é uma pieguice danada, mas é maravilhosa! Pois bem, planejei tudo com uns 40 dias de antecedência. Resolvi que tudo aconteceria durante minha semana de férias de julho. Como sempre vou pra Santos/SP, decidi que faria mesmo no lugar onde sempre sonhei: em Boituva, interior de SP. Lá está o maior centro de paraquedismo da América Latina e se eu fosse morrer, que fosse em grande estilo, então. Brincadeiraaa! Hahahaha... Reservei hotel, agendei o salto, combinei com meus amigos, comprei as passagens e fui. Desci em São Paulo no sábado, dia 23 de julho, passei a noite num hotel com a companhia da minha amiga linda Gisele. Mal dormi, eu estava ansiosa e com dor na consciência de estar escondendo dos meus pais tais planos, mas deu tudo certo... depois meus pais entenderam que foi por uma boa causa. Logo amanheceu e meu amigo Mauricio foi me buscar, no meio do caminho pegamos a Vivian Carla (também minha amiga que saltaria) e partirmos rumo à Boituva. 

Vi a porta daquele pequeno avião abrir e uma corrente de ar muito forte bateu no meu rosto. À minha frente só o horizonte. Acima o céu azul e um sol radiante. O dia estava lindo, parece que tinha amanhecido daquele jeito pra mim. Quatro mil metros abaixo, vi o chão como uma grande pintura verde. Um calafrio de vontade imensa de me lançar no vazio me tomou. Era hora de ultrapassar qualquer limite que meu corpo poderia ter experimentado até então. E o que significa "limite" pra alguém que nunca correu, pulou ou subiu escadas, mas que agora virara pássaro? Era hora de extravasar todas as mágoas, as angústias, as alegrias. Eu queria exorcisar de vez todo e qualquer sentimento impuro como num grande ritual de passagem; queria provar a mim mesma que tudo é possível quando se sonha... mais que isso: quando você se dedica em realizar o sonho. Eu não tive medo. Medo de quê e pra quê? Se você parar pra pensar em perigo, você não nasce, nem vive. Quer perigo maior do que estarmos alheios a nós mesmos? E também não lembrei das instruções de salto. Sinceramente, naquela hora eu não pensei em nada. Experimentei algo novo e fantástico. Descobri que minha alma não cabe em mim, que sou maior do que minha altura física.

Foram 47 segundos intermináveis com aquele flash do filme da minha vida rodando na cabeça. Depois foram 4 ou 5 minutos com o paraquedas aberto. Finalmente, pude tirar os óculos de proteção e eu só queria contemplar tamanha liberdade. Só a minha voz no espaço e nada pra me segurar. Eu estava ali por minha conta e risco e devia esse grande passo apenas a mim mesma. Em todo detalhe, momento bom ou num sorriso que acontece, eu penso na mesma koisa: como queria poder saltar do avião de novo... porque é essa a sensação de felicidade que ficou em mim. Todas as pessoas deveriam fazer isso, pelo menos uma vez. Caro leitor internauta, lembre-se bem de certas koisas: não importa em que condição (física, social, financeira, emocional) você se encontra, ninguém tem o direito de menosprezar seu sonho e de te impedir de seguir adiante. Somos seres livres e devemos pautar nossas relações (todas) com o mundo apenas na verdade e no prazer de "estar com". Quantas vezes temos vontade de nos lançarmos nos abismos, nas incertezas, no inesperado e desconhecido e não fazemos? Ninguém tem o direito de dizer que você não é capaz, só você determina até onde vai sua capacidade. E esse corpo de carne e osso? Só serve de veículo, o que realmente faz diferença é muito sutil e invisível aos olhos. Absolutamente tudo é efêmero, mas possível! Acredite! Porque a gente é sim do tamanho dos nossos sonhos. E eu sonho alto, literalmente.

Quero deixar meu agradecimento ao cameraman Xandy, ao meu instrutor Fábio Pombo e a toda equipe do Paraquedismo Boituva: Viviane, Julie, Rose... Valeu pelo profissionalismo, alegria e carinho com que me trataram!! Não consegui postar aqui, mas segue o link do meu vídeo no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=JGfmGN9P1ks.

Mega beijo aos meus amigos que se angustiaram, mas torceram muito por mim... além, claro, de deixar um beijão ao Mauricio Gomiero, à Vivian Carla e à Gisele Nunes, meus cúmplices diretos... mamãe espera conhecê-los em breve... hahahaha...

"E se me empurrarem do penhasco eu vou dizer: E daí? Eu adoro voar!"
(Clarice Lispector)