segunda-feira, 23 de maio de 2011

Vou de táxi...

Uma das koisas mais legais que me aconteceu na última ida a Sampa foi a conversa que tive com o taxista que nos levou da Reatech até o hotel em que a Karla e eu nos hospedamos. Já era fim de tarde daquela sexta-feira. Como você pode ver na foto, entre os prédios, o sol se punha majestosamente e eu me emociono só de olhar para a paisagem concretada de São Paulo (sei lá, se vidas passadas existem, eu nasci paulistana em todas elas. Só pode!). Lembro que conversávamos sobre qualquer bobagem, provavelmente do trânsito caótico, quando o taxista - um cara, de mais ou menos, 37 ou 38 anos -, bem sem jeito, perguntou se poderia me fazer outra pergunta. Quando as pessoas me perguntam isso já sei que vem 'chumbo grosso', sei que vão perguntar algo referente à deficiência - o que, em geral, é mais constrangedor para elas perguntarem do que para eu responder... risos. Felizmente, não tenho encanação nenhuma em ter que responder qualquer tipo de pergunta sobre isso. Estou acostumada e me sinto confortável matando 'de voadora' a curiosidade alheia... risos. Eu até prefiro quando perguntam porque sei que é absolutamente normal as pessoas terem curiosidade. Eu também quero saber como são as koisas quando conheço um 'matrixiano', uai. Então respondo numa nice porque ninguém é obrigada a saber como foi, como é, como faz, etc. Além disso, quanto mais posso explicar, melhor, assim não dou margem para que as pessoas criem fantasias, mitos ou pré-conceitos. Certo?

Enfim, autorizei o cara a perguntar. O taxista, que se chamava Nilson, queria saber como foi minha infância, se me senti excluída alguma vez, etc. Achei a questão dele intrigante. Geralmente me perguntam se faço ou não tal koisa. Depois constatei que realmente havia um motivo especial para a pergunta. A filha dele é bebê, nasceu com uma doença grave de pele e ele me revelou o desejo dele (e da esposa) que a filhinha tenha uma vida normal. Então, respondi que tive uma infânia comum, sadia, que as crianças sempre queriam estar perto de mim. Inclusive, ainda tenho amigos e amigas da pré-escola. Se eu não pude pular corda, eu a rodei para que as outras crianças pulassem. Se não pude jogar vôlei, tratei de ser a juíza da partida. Se eu não pude correr e me esconder, servi para contar até 50 e gritar 'Lá vou eu!' - devagarinho, mas ia... risos. E como era bom ser criança! Gente, vamos parar de dizer por aí que as crianças são cruéis. As criancas são verdadeiras, puras e cruéis são os adultos que as ensinam a ter preconceitos. Se uma criança tem preconceito é porque um adulto introduziu esse conceito; é repetição de comportamento. Pois é, não sei se tive sorte ou o quê, mas o fato é que sempre fui tratada como os demais, apesar de ter usado orteses (os famosos aparelhos ortopédicos) até a adolescência. Até a faculdade eu fui bem paparicada. A tchurma sempre queria comprar o lanche para mim, carregar minhas pastas, etc. e ainda fiquei taxada de 'orgulhosa' por negar ajuda em algumas situações. É mole?... risos. Eu sempre dizia rindo: 'Calma, gente, não é nada pessoal, eu juro. Mas é que isso posso fazer sozinha.'. A Rubia, inclusive, quando me dava carona, parava o carro em cima da calçada da Unisantos para eu entrar com mais comodidade. E quando chovia, então? Aff, ela só faltava estacionar dentro da cantina para evitar que eu me molhasse. Eram 'micões' gostosos de pagar... risos.

Falei para o Nilson que devo toda essa jornada aos meus pais que sempre me muniram de senso de igualdade, auto-estima, responsabilidade e respeito. Minha mãe sempre conta que uma psicóloga da Reabilitação Infantil de Floripa (onde fiz fisio e hidro por muito tempo) sempre a aconselhava: 'Mãezinha, coloca sempre roupa de manga curta e bermudinha na tua filha, nunca a esconda... assim as pessoas se acostumarão com ela.'. Foi o que mamãe fez. Vai ver que foi nessa época que eu escolhi ser psicóloga... risos. Foi isso que eu disse para o taxista: como nos veem é, geralmente, como nos vemos e como nos portamos. E isso não serve só para deficiente, não. Serve para todas as pessoas. Se você se fizer de vítima, você será mesmo. Se você tem vergonha do que é, ninguém mais poderá orgulhar-se de você. Aquele trajeto da feira até o hotel durou uma eternidade. Dei meu e-mail para o Nilson, caso ele e a esposa precisassem de algo. Eu sei, eu falo mais que 'o homem da cobra', mas a vida é feita disso: de encontros... verdadeiros encontros. 

Megabeijo.

4 comentários:

  1. Como sempre um texto maravilhoso!!! Vc têm o dom amiga, de verdade!!! Concordo com vc, criança é tudo de bom, e os adultos é que fazem com que a criança desenvolvam o preconceito! Acho bem legal essa tua disponibilidade de falar, contar a sua história, é um poderoso meio de acabar com o preconceito!!! Sucesso sempre!! Bjo bem grande...

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  2. Adorei.. Como sempre um ótimo texto.. Vc está certa sobre crianças e sobre não se esconder.. E não permitir que se escondam.. Não tem motivos..

    Deixa eu te contar agora o que eu tinha pra falar, e tem a ver com essa coisa de se "esconder"..

    Vc sabe que sou fisioterapeuta, e quando eu trabalhava eu trabalhava com neurologia e ortopedia. Atendia muitas crianças com problemas neurológicos e a coisa que eu mais insistia com os pais era isso: seu filho não precisa ser privado de nada na sociedade. Ele não pode e nem deve ser tratado diferente de qualquer um. Tenha atitudes positivas que vocês terão respostas positivas..

    Mas nem todos os pais aceitam isso bem. Muitos pais acham que o filho por ter uma paralisia cerebral é um coitadinho e que deve ser superprotegido e fazer o que bem entender..

    Eu comecei a atender uma criança com PC leve. O garoto sempre teve uma atitude mimada na clínica. A psicóloga e eu conversamos com os pais, pedimos, mostramos que aquela superproteção estava prejudicando o desenvolvimento pleno do filho deles. Eles insistiam para nós que o filho era especial, que ele não sabia o que fazia, que só queria ser amado e a gente tinha que amá-lo e entender que aquilo que ele fazia era sem intenção. O garoto fazia: chutava todas pessoas quando estava no andador, chutava todos os fisioterapeutas que o atendia, dava tapas no rosto dos fisios, mordia quem estivesse ao seu alcance.

    A gota d´água pra mim foi o dia que ele propositalmente jogou um bastão e colocou o pé na frente de uma menina cega de 6 anos que estava na mesma sala que ele. Era a primeira vez que a menina tinha largado a mão de uma fisioterapeuta e caminhava sozinha pela sala. Ela estava sorrindo pq ela tinha conseguido dar 20 passos sem ajuda de ninguém. O garoto foi lá e fez isso.. O que nós lutamos por 1 mês com a garota, foi jogado no lixo..

    Eu peguei o garoto pela mão, saí da sala de terapia e o entreguei pra mãe e disse: "O dia que vcs estiverem mesmo dispostos a tratar o seu filho, eu estarei aqui de braços abertos. Todos na clínica estarão, mas enquanto vocês não pararem de achar que essa criança pode tudo porque ela tem uma deficiencia, ele nunca vai ser uma pessoa plena. Vocês não estão ajudando em nada o menino. Vocês precisam rever como enxergam o filho. Desculpe, mas vai ser assim"

    Duas semanas depois eles começaram um terapia de família na clínica.. O garoto demorou pacas a se comportar, mas conseguimos.. E foi muito bom ver ele interagir com outras crianças e ver como ele estava muito melhor..

    E só pra finalizar.. Na sala de aula da minha filha tem três crianças com necessidades especiais: um PC, um surdo e uma autista.. As crianças nem lembram que eles possuem algum tipo de deficiência e os tratam como iguais.. Eles sabem que o Vitor nunca vai poder correr e brincar com eles, então eles empurram a cadeira de rodas dele. Sabem que o Júlio não pode entender se não falam de frente pra ele, então o garoto está sempre na frente de todos e sabem que a Anita pode não brincar sempre com elas, mas eles sempre a convidam..

    Eu tenho orgulho de ver que minha filha nunca se refere aos amigos como o menino que não anda, ou como o surdinho ou como a retardada.. Eles tem nomes.. E são tratados como tal..

    Beijos e eu escrevo muiiito!! kkkk

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  3. Káááááá,

    Eu sempre me emociono com os seus posts!!!! Impossível não se emocionar, né :)

    Beijos e mais beijos!!!

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  4. Bom não sei como começar mais vou começar (...)
    Primeiro sou a Sabrina do Grupo de Jovens JUSF, a falante como diz você, para mim foi uma honra ter te conhecido, e saber um pouco da sua história, e saber como você foi guerreira e enfrentou tudo de frente, pode ter certeza que depois das tuas palavras me fizestes refletir sobre alguns pensamentos meus mais profundos, queria ter dito hoje na hora do grupo minhas palavras mais profundas maia não tive a oportunidade de expressa -lás mais acho que concerteza teremos outros momentos juntas que eu possa transmitir minhas palavras pessoalmente a você. Como falei no grupo hoje foi uma honra muito merecida saber da sua história e fazer uma pequena parte de sua vida. E poder dizer do fundo do meu coração que você apartir de hoje vira meu EXEMPLO DE VIDA PARA MIM, suas palavras transformar uma "palestra" num momento muito ESPECIAL siga sempre em frente apesar dos apesares pois na vida e no meu coração já está fazendo parte do começo da minha história, pois como você disse ainda estamos num caminho que vamos trilhar muitas coisas ainda somos muito jovens espero continuar essa linda amizade que surgiu hoje no dia 06 de Agosto de 2011 e repito mais uma vez foi uma Honra poder ter conhecido você e sua GRANDE HISTÓRIA.
    Beijos da Sabrina Falante ;) 06-08-11 23:22

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