domingo, 24 de outubro de 2010

Ih, quase morri!

Pois é, caro leitor internauta. O título da minha postagem não é nenhuma piadinha tipo as que você está acostumado a ler aqui no blog. Dia 26 de setembro, data da minha vinda de Sampa para casa, eu vi a Dona Morte de perto... tão pertinho que ela quase sentou ao meu lado para tomarmos um lanchinho juntas. Vou explicar por que: naquele domingo, o Márcio (marido da Rê) acordou meio adoentado. Enquanto ele repousava, arrumei a bagagem. Separei a roupa usada em sacolinha plástica e coloquei no fundo da mala. Depois juntei as koisas no banheiro e guardei as necessaires. Conferi se os documentos estavam na bolsa e chequei a bateria do celular. Me sentei na cama e olhei para a mala com ar de nostalgia, como em todas as vezes que tenho que ir embora. Almoçamos eu, Renata e Jeovana... e o Márcio foi se recuperando (acho que foi de tanto que rimos). Quando saímos de casa o horário já estava apertado, mas não me apavorei. Na Imigrantes o trânsito estava intenso, mas andando. Chegamos em Congonhas faltando 15 minutos para o meu voô partir. Parece muito, mas não é. Ainda deveríamos andar até o check-in, fazer os trâmites e me dirigir para a sala de embarque e tudo isso é muito longe por lá. E eu ainda não aprendi a correr, caro leitor internauta, então fui me preparando psicologicamente caso não desse tempo de embarcar... risos. Eu estava tranquilíssima com a situação - tanto pela a probabilidade de embarcar num próximo voô ou pela vontade descarada e inconsequente de ficar ali... risos.

E não deu tempo mesmo. Renata e Jeovana foram correndo na minha frente e levaram meus documentos para tentar fazer o check-in, mas já era tarde. Quando consegui encontrá-las já estava tudo resolvido: Jeovana reconheceu o meu amigo Genivaldo (da Gol) no balcão e ele já havia conseguido um lugar para mim no voô seguinte, mais ou menos, para uma hora depois - e sem pagar o no show. Ouvi ele falando no rádio e estavam direcionando a aeronave para o portão 12 (no finger, porque era mais fácil para mim), já que, oficialmente, o embarque seria no portão 19 (na pista - primeira foto acima). Mas era muita coincidência: dia de folga do Genivaldo, então por que ele estava ali trabalhando bem na hora que perco o avião? Batemos um papo e, enquanto ele ajeitava os últimos detalhes, fui até uma livraria perto da praça de alimentação e comprei um livro de presente para ele. Era um livro que ele queria e achei que seria uma boa forma de agradecê-lo pela gentileza. Afinal de contas, ele não tinha obrigação nenhuma de me embarcar e muito menos de não cobrar as taxas, não é verdade? Deixei uma dedicatória na primeira página como se o livro fosse meu... risos

Enquanto aguardava sozinha naquelas cadeiras de sala de espera, comi um chocolate que havia comprado num semáforo próximo de Congonhas e a mesma questão se fez presente em boa parte da viagem: por que perdi o avião? O que a vida quis oportunizar com meu atraso? Acredito que tudo tem uma razão para acontecer, então qual era a razão daquilo? A resposta viria mais tarde. Por sorte, sentei na poltrona 1, é o melhor lugar do avião, mais espaçoso. Na janela sentou um senhor e o meu lado, uma guriazinha muito esperta chamada Tatiana, de 10 anos. Ela sabia de cor as falas de instruções de segurança da aeromoça, cômico... risos. Depois me contou que mora em Floripa, mas viaja a cada 15 dias para ver o pai em São Paulo.

Deixamos a capital paulista com muita neblina e chuva. Depois de ultrapassar as nuvens pude ver o horizonte limpo e, lógico, a imagem merecia uma foto. No meio da viagem, enquanto os comissários distribuíam os lanches, tomamos o primeiro susto: soou um alarme e eles correram para sentar em suas poltronas próximas à porta de entrada. Foi a pior turbulência pela qual já passei, mas foi bem rápida. Até aí, eu estava tranquila... e a Tatiana também. Quando nos aproximamos de Floripa, o piloto desceu um pouco e entramos numa mega nuvem, caro leitor internauta. Você sabe como é estar dentro de uma nuvem num avião? Primeiro que escurece tudo, fica parecendo um cinema e depois a luz do avião que pisca do lado de fora deixa parecendo que há um pirralho chato acendendo e apagando um interruptor. Não é muito agradável, eu garanto. O comandante, então, avisou que dentro de alguns minutos estaríamos aterrisando. Quando o piloto diz isso, você pode contar uns cinco minutos e já estará na pista, maaaaaaaaaaaaas não foi isso que aconteceu naquele dia. Era hora do segundo susto: entramos na nuvem e não saimos mais. Quando o avião está descendo você tem a nítida sensação de que tem alguém puxando suas calças para baixo, mas também não foi o que aconteceu. O que todos sentiram é que o avião estava fazendo curvas dentro da nuvem. Pendia para a direita e acelerava. Girávamos sob o mesmo ponto repetidas vezes. As pessoas começaram a ficar aflitas. Como eu estava numa posição 'privilegiada', tinha a visão exata das poltronas dos comissários e percebi que eles também estavam aflitos. A aeromoça respirava fundo e o aeromoço olhava para o teto como se implorasse para aquilo ali acabar logo. Se, eles que trabalham com isso, estavam nervosos, como eu poderia ter tranquilidade? A Tatiana começou a rezar e pediu para segurar a minha mão e, mesmo estando desesperada, me obriguei a passar o mínimo de serenidade para a menina. Não sei se consegui, mas eu não poderia entrar em pânico e deixar a criança pior que eu, certo?

Nesse momento, senti o meu coração bater muito forte. Na verdade, eu só conseguia ouvir o ritmo frenético do meu coração. Era como se ele estivesse pulsando fora do meu corpo... ao lado do meu ouvido, mais exatamente. Senti meus olhos secos, sem conseguir piscar e correu um flash na cabeça. Ainda quero fazer muita koisa nessa vida. Ainda quero publicar um livro, comprar uma Kombi 1973 e ter um cachorro São Bernardo. Quero saltar de paraquedas, casar vestida de noiva e ter filhos. Ainda quero fazer especialização, mestrado e doutorado. Quero ir a Paris. Quero aprender a tocar bateria. Quero ser poliglota. Quero ir num show do Roberto Carlos. Quero conhecer o Luciano Huck. Quero um afilhado. Quero trabalhar na AACD. Quero pular numa cama elástica. Quero comer, rezar e amar. Quero sorrir e perdoar. Quero ser ponte, ao invés de ser muro. Quero deixar algo de bom, uma semente bem plantada. Quero voar. Quero muito mais. Quero tanta koisa, mas naquela hora tudo que eu conseguia pensar era que eu só queria estar viva para realizar meus sonhos. Parece mórbido, mas não é... se eu morresse ali, estaria em paz porque eu adoro estar no céu. Constatei o quanto a vida é delicada e efêmera. E, de repente, você se esquece agradecer por estar respirando e deixa de contemplar a beleza desse dom de ser e de estar vivo.

E então tratei de rir da minha própria desgraça. Já que morreria, eu queria morrer sorrindo... risos. Aí voltou a questão: será que eu tinha perdido um avião para morrer em outro? Isso é bem koisa de notícia do Jornal Nacional, né? 'A passageira Karla Garcia Luiz se atrasa, perde o voô e morre em queda de avião!'. Credoooooooooooo! Espero que um dia o William Bonner diga o meu nome, mas não para anunciar uma tragédia! Quero estar viva pra ver isso... risos. E não dizem que pensamento tem poder? Então comecei a pensar: 'Desce, comandante... desce... minha vida não tá pra negócio não! Bóra descer esse trem que não é trem!'. Ufa, depois de 20 intermináveis minutos começamos a descer. A sensação foi parecida com aquela de quando você está apertadíssimo para fazer um pipi e, finalmente, consegue fazê-lo. Um alívio! Pude sorrir com tranquilidade e lembrar da semana maravilhosa que havia passado em terras paulistas. Pela janela vi as luzes da pista do aeroporto. Olhei para a Tatiana e falei: 'Pronto, mocinha. Estamos em casa!'. Antes de desembarcar, a fofíssima, provavelmente mesmo sem saber o quanto tinha me ajudado, me deu a resposta que buscava: 'Você perdeu o avião, mas pense pelo lado bom, você conheceu uma pessoa legal: eu!'. É, ela tinha razão.

Quando vi e abracei meu pai na porta do desembarque, tão assustado quanto eu, nem pude acreditar. Eu estava de volta ao meu aconchego.

Boa semana, queridos!

4 comentários:

  1. Nossa prima vc me tirou o folego me arrepiei mesmo sabendo que nao aconteceu nda rrssrr Mas vc tem razao temos que tentar realizar todos nos sonhos para nao nos arrependemos de nada bjosso

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  2. Karla, você é uma querida, sabia? Comecei a ler e falava, eu estaria desesperada neste vôo, dane-se a psicologia que os psicólogos têm que ter... e deixaria a menina traumatizada!
    Aí você começa a falar de seus sonhos: aaaaaaaaaaaaaa também quero uma kombi, publicar meu livro, já tentei tocar bateria (mas este sonho não morreu), não quero mais fazer mestrado e doutorado em psi, mas quero ser feliz. Muito.
    Obrigada por me lembrar de agradecer a vida.
    Viu, você perdeu o vôo, para conhecer alguém legal e me roubar um sorriso.
    beijos

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  3. Oi Karla!

    Verdade, encontrei teu blog em um comentário e, gostei muito dos textos que lí apesar de não ter comentado algum. E nossa, que susto durante este voo não, e que simpática a menina Tatiana, muito lindinha ela. Muito obrigado pela visia, ótimo final de semana pra você!

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  4. Karla, você é muito engraçada. Me diverti lendo este texto em especial. E com certeza você deve saber o motivo. Risos. Só você mesmo.
    Resumo: Decolagem perfeita+chuva forte+turbulência+medo da coisinha de muitas toneladas cair+destino final com mais chuva+ ventos+ turbulências+alteração de altitude e velocidade em função dos ventos... kkkkkkkkk até senti saudades! kkkkkkkkk PS: O operador de embarque é realmente gente fina demais!

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