segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Em defesa das APAES



O protesto que aconteceu no último dia 7, foi para que seja mantido o texto da Meta 4 do PNE (Plano Nacional de Educação) que mantém a opção das pessoas com deficiência intelectual de serem matriculadas nas escolas de educação especial, como as escolas das APAES, por exemplo. Quem defende a inclusão total, radical, como queiram chamar, por acaso conhece de fato a realidade desses alunos, ou será que está apenas debruçado em ideologia? Não devemos abandonar a teoria, óbvio, mas na prática a história é outra. 

Estive na APAE como psicóloga nos últimos 4 anos e a verdade é que, felizmente, essas pessoas podem contar com profissionais especializados que buscam defender os interesses das pessoas com deficiência intelectual, inclusive tendo que dar pitaco lá no ensino regular para a coisa não degringolar. É importante esclarecer que a escola especial (não curto esse nome, mas fazer o que?) é uma modalidade de ensino e não substitui nem exclui a escola regular (odeio esse nome também), ambas podem complementarem-se.


E mais: há alunos na APAE em idade escolar que possuem a deficiência intelectual grave + cegueira + uso de fraldas + irritabilidade a barulho, por exemplo, ou outras deficiências e dificuldades associadas. Então o que essa pessoa ganhará indo para a escola regular? Essa tem que ser a questão balizadora de toda discussão: o que cada aluno ganha/perde com isso? Temos que olhar a necessidade de cada um, porque uns têm condições de ir ao ensino regular, mas outros não. Ou respeitamos as necessidades dessas pessoas ou cairemos no mesmo erro da exclusão: violaremos direitos e pessoas.

Dante de tudo isso, pergunto: o ensino regular está preparado para receber TODAS as pessoas com qualidade e dignidade? Penso que não. TALVEZ um dia esteja, mas o momento atual é de construção, de soma, de diálogo, não de jogo de forças. Ah, e por obséquio, deveriam fechar o Congresso Nacional, não as APAES. Boa tarde!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Esqueeeeeeeenta!


Gente bonita, eu queria escrever sobre o programa Esquenta! da Regna Casé que foi ao ar no dia 09/12, domingo, mas meu amigo e colunista da Folha de S.Paulo, Jairo Marques, foi tão brilhante que pedi autorização para compartilhar. Em seguida faço meus comentários:

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"Vou me atrever a dizer que o programa ´Esquenta´, tocado pela Regina Casé, na ´Grobo´, foi uma das maiores exibições positivas de gente ´quebrada´ da televisão brasileira. Por mais de duas horas, um povão sem perna, sem braço, cadeirante, cegão, gente pequena e gente prejudicada total das partes ocuparam um espaço nobre da programação mais assistida do país. E Regina Casé detonou. Pouca gente consegue ser tão espontânea diante de tanta diversidade humana. Geralmente, a reação é ficar com receio, é medir palavras, é fazer cara de dó. O que vi foi uma bagunceira, uma felicidade e uma multidão de informações. Rapidinho já havia pelas ´internets´ uma bobagem de alguém criticando uma ´gafe´ da apresentadora ao brincar com quem não tinha braço… pelamor, a pessoa que escreveu a notinha é quem deveria botar a cara dentro de um buraco e ficar lá durante um mês, de tanta desinformação...

O programa contou com uma entrevista com a presidente Dilma, que não falou nada demais e só aproveitou o espaço para pagar de boazinha, mas não acho que isso tenha tirado o brilho do espetáculo. Falou-se de tudo no ´Esquenta´: das possibilidades de vida de um ´malacabado´, de seus potenciais, de seus perrengues, de suas demandas. Isso tudo num ambiente absolutamente misturado, uma ‘coididoido’, como se diria lá em Minas… kkkkkkkkkk

Houve também uma abordagem inteligente sobre precauções para que se evite engrossar mais a fila dos quebrados, falou-se a respeito de direitos, de possibilidades. Claramente, a produção sabia do que estava falando… Assistindo aqueles debates todos, refleti, mais uma vez, sobre o tamanho da força da organização das pessoas. E o avanço das demandas dos ‘estropiados’ vem justamente de gritos incansáveis de quem não anda, não vê, não ouve e nem nada! Felizmente, o processo de ´dominação do mundo´ para que ele se torne mais justo e inclusivo a todos continua esquentando…. e bora tocar mais fogo nisso!"
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Concordo plenamente com o Jairo. É bem verdade também que os discursos são sempre bonitos, ideais e nem sempre condizem com a realidade. Entretanto, quem conhece a história do movimento social das pessoas com deficiência no Brasil e no mundo, sabe bem que até pouco tempo atrás as pessoas com deficiência ocupavam os porões das sociedades - figurativa e literalmente. Ser deficiente, ao longo da história, significou transitar pela bênção ou maldição. Sempre fomos divinos, abençoados ou malditos, rejeitados. Acredito bastante no papel social que a mídia exerce sobre todos nós e confesso que estou acostumada a ficar aborrecida com reportagens sensacionalistas, que pregam a deficiência como uma tragédia. Portanto, ao assistir o Esquenta! no último dia 9, estive, pela primeira vez, totalmente rendida pela abordagem que um programa de TV utilizou para falar desse tema - e, de certa forma, para falar de mim. Olha, Regina Casé, minha filha, você AR-RA-SOU: falou com naturalidade daquilo que ainda é desconhecido para muitos. Outra koisa: discutir deficiência sob a perspectiva do modelo social e respeitá-la como condição humana em pleno horário nobre de domingo numa das maiores emissoras de TV do mundo, não é pouca koisa, minha gente. O que assisti naquele programa foram reflexões que resultam em mais informação e menos preconceito. 

Bora assistir um trechinho?


Beijos.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Minha primeira vez na TV

Gente, que saudades!

Hoje vim dividir com vocês um momento muito legal da minha vida: minha primeira vez na tv.

Nessa edição, o Programa Mulher em Foco estava discutindo as conquistas e dificuldades dos deficientes em Santa Catarina. Vale mencionar que esse programa vai ao ar pela TV AL, que pertence à Assembléia Legislativa de Santa Catarina que, por sua vez, possui uma Comissão de Direitos da Pessoa com Deficiência presidida pelo Deputado Estadual José Nei Ascari.

Foi uma experiência muito bacana estar frente à câmera. A jornalista Claúdia Alves e o cinegrafista Jair Corrêa foram bastante generosos comigo no sentido de me passar segurança e tranquilidade na gravação. Aproveito para agradecer a gentileza com que fui tratada ; ) 

Bom, seguem os vídeos, então. No primeiro está o vídeo do programa na integra. No segundo está apenas o trecho em que eu apareço (prometo colocar legenda assim que for possível para facilitar a compreensão dos amigos com deficiência auditiva).

Vídeo na íntegra (não reparem na minha careta):



Vídeo apenas com a minha parte (fiquei melhorzinha):


Superbeijo.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Karona com Ká

Por questões de trabalho, ano passado tive que ir conversar com a diretora e a professora de uma pequena escola municipal. A escola fica na zona rural, numa rua sem saída e tem, aproximadamente, 30 alunos em cada turno. Ao chegar na escolinha, senti o aconchego do lugar tão pequeno, colorido... como se o coração do bairro pulsasse ali. Cumpri minha missão e decidi ir embora quando o sinal da saída já havia batido. No portão, algumas crianças, de uns 6 ou 7 anos, esperavam o ônibus escolar. Obviamente estranharam ver uma pessoa tão diferente (eu) andando em direção a elas. Ainda assim, meio receosas e, ao mesmo tempo, cordiais, abriram caminho para que eu pudesse passar.

Caminhei em direção ao carro que estava do outro lado da estreita rua e, mesmo de costas, fiquei ouvindo as crianças cochicharem:
- Pra onde será que ela vai?
- Será que vai pro carro?
- Não vai, não.
- Será que ela sabe dirigir?

Como devem saber, não me incomodo com os comentários das crianças que, em geral, são muito verdadeiras e curiosas. Ainda que fosse uma conversa discriminatória naquele momento, eu daria um jeito de conversarmos a respeito. Acho fantástico ter oportunidades assim para desmistificar a deficiência.

Então, continuei andando, rindo baixinho também. Quando alcancei a maçaneta da porta do motorista, virei para trás e disse:
- Alguém quer carona?? 
As crianças deram um pulo de susto, arregalaram os olhos e todos nós caimos na gargalhada. No caso seria karona com Ká. Comigo. Sob olhares perplexos, entrei no carro, dei partida, buzinei e elas acenaram com um tchau. Fui embora mais feliz. Acho que elas também.

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Definitivamente adoro crianças. Vejo nelas a possibilidade de adultos do bem.

Beijos. 

Para os cegos, a descrição: na foto da postagem há seis crianças sorrindo e deitadas no chão formando um círculo.

sábado, 26 de maio de 2012

Fotógrafo ou palhaço...

Nesses 2 anos de existência do blog já parei para pensar algumas dezenas de vezes o quanto foi acertada minha decisão de criar um espaço para hospedar minhas vivências. Lá no começo, eu não tinha a mínima pretensão de me tornar uma celebridade (continuo não tendo esse objetivo), muito menos poderia imaginar que em tão pouco tempo tanta koisa boa viria e que conheceria tantas pessoas incríveis através de uma ferramenta virtual. De fato, de lá pra cá, minha vida mudou significativamente - para melhor. Curei muitas feridas, passei a me dedicar mais ao meu trabalho, adquiri nova consciência enquanto deficiente, aprendi a lidar melhor com os erros, amei de novo e o mais bacana: algumas pessoas que conheci em blogs tornaram-se tão importantes e presentes (ainda que nunca tenhamos nos visto oho no olho) que passei a pensar nas minhas koisas através da leitura das koisas delas. Além disso, passei a dividir os nomes, as histórias, as angústias e alegrias delas, principalmente com mamãe.  

Mesmo desconhecendo o universo dos blogs, do Facebook e koisa parecida, mamãe já conhece, emociona-se e delicia-se quando conto histórias dos blogueiros, em especial do Flizam. Para quem ainda não o conhece (e não sabe o que está perdendo), Flizam é o apelido do Fábio Ludwig, um gaúcho morador de Brasília, marido da Ana e pai do Antonio que nasceu com uma síndrome rara. O Fábio não é só o pai raro de um filho raro, mas é também um escritor raro. Sou fã de carteirinha. Leio o blog do Fábio toda semana, me preocupo quando o Antonio fica doentinho e tenho vontade de mordê-lo só em ver as fotos, rio e choro lendo os belíssimos textos e, de quebra, tento entender como é ser pai de um bebê com deficiência. Lendo e contando a história da família Ludwig, eu consigo aproximar a mim e à mamãe das vivências que meus pais também tiveram quando eu nasci. Outro dia, contei para mamãe que o Fábio havia escrito um post sobre fotografia com o título: Um grande fotógrafo. Leia você mesmo na íntegra. É brilhante. Para ela, detive-me a contar o trecho engraçadíssimo que encerra o tal texto:

"Há algum tempo, minha sogra estava com o Antonio no colo, quando dois garotos com cerca de oito anos se aproximaram e perguntaram:

– Quantos anos ele tem?

Ela respondeu:
– Dez meses.

Observando o estrabismo do Antonio, um dos garotos não conteve a surpresa:

– Nossa! Só dez meses e já consegue imitar olho de vesgo direitinho?!

Morri de rir quando me contaram esta história. Foi apenas um instante. E poderia ter passado em branco. Mas o olhar inocente do menino registrou o momento para sempre. Se este garoto conseguir preservar a sua falta de preconceitos e continuar a ver o mundo com uma perspectiva diferente da maioria, que grande fotógrafo o mundo ganhará."

Esse trecho, contado por mim com todo meu talento de interpretação (ô!), fez mamãe cair na gargalhada e lembrar de um episódio interessante: quando eu tinha uns 6 anos, fomos à uma feira, tipo festa das flores, da maçã ou qualquer koisa do tipo, em outra cidade. Naquela época, eu ainda usava os aparelhos ortopédicos tipo os do Forest Gump e vesti calça para ir ao tal passeio. As órteses ficaram cobertas pela roupa e sempre me renderam um andar muito "séchi" como o do Robocop. Lá pelas tantas, um moço fantasiado de palhaço começou a andar atrás de mim, me imitando. Meus pais, surpresos, deixaram a cena rolar para ver o que eu ia fazer. Entrei no clima, dei risada e continuei andando mesmo com a presença do marmanjo me imitando. Depois de um tempo de brincadeira, o rapaz percebeu que não estava brincando, eu realmente andava daquele jeitinho. Digo, eu estava brincando sim e me divertindo muito, mas não do modo como o moço almejou. Quando ele percebeu que eu era deficiente, ficou muito, mas muito envergonhado mesmo. Mamãe, que é a pessoa mais educada que conheço, ficou extremamente sensibilizada pela gafe do palhaço (sem trocadilhos). Já papai caiu na gargalhada e tentou acalmar o moço (que só faltou chorar e não sabia onde enfiar a cara tão maquiada). Foi um episódio que nunca esquecemos.

O que quero dizer é que, relendo minhas postagens, pode parecer que desde que nasci tudo sempre foi fácil, seguro, tranquilo e maravilhoso. Entretanto, todo mundo pode imaginar (ou sabe) como é perturbador receber um filho com deficiência. Mamãe é ligeiramente dramática, ansiosa e tem um medo absurdo de magoar as pessoas. Papai é o caminhão da paciência. Enquanto mamãe descabela-se ao ver o mundo cair, papai, com cinco piadas e toda competência de construtor, arranja uma maneira de sustentar os pilares do planeta. Com certeza, meus pais tiveram suas angústias, suas revoltas, suas fraquezas, suas dores - assim como o Fábio já teve, mas o mais interessante é que só lembro do modo como eles me ensinaram a encarar com leveza a questão da deficiência, ainda que aparecesse numa gafe dos outros. O bom humor é um dispositivo muito eficaz para tornar familiar o que até então era desonhecido, um mito - inclusive a deficiência. Se, até pouco tempo, éramos alvo de chacotas, hoje são os próprios "malacabados" que fazem piada da sua condição, né não? Por isso fico orgulhosa e aliviada de ver que outros pais estão tendo e dando possibilidade para que seus filhos deficientes e outras pessoas percebam/façam graça das suas limitações e características tão peculiares, sejam elas fotógrafas ou palhaças. Naquela ocasião com o palhaço, eu aprendi a fazer palhaçada pra vida inteira!

Dedico esse post ao pequeno Antonio ("Tom Tom" para os íntimos da internet, como eu).

Todo karinho aos Ludwig.

* Para os cegos, a descrição: na primeira imagem há um fotógrafo agachado. Na segunda imagem há um rosto em preto e branco destacando um nariz vermelho (característica principal dos palhaços).

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Que "eu" é esse que se vende?

Faz um tempo eu venho pensando (e me indignando) com o que tenho visto do universo da deficiência. São palestras motivacionais, livros de auto-ajuda e todo tipo de discurso que nos remete à ideia de sermos (os deficientes) seres extraordinários. Sem dúvida fugir de certas polêmicas acaba se tornando um caminho bastante cômodo, mas, como a palavra comodista me incomoda bastante, decidi pedir a companhia do Eduardo Martins (o famoso Dudé - vídeo abaixo) para mexermos nesse “vespeiro” juntos. E qual seria esse assunto tão velado, tênue e perigoso? Sempre que eu e o Dudé conversamos sobre a maioria das palestras que vemos espalhadas na internet, ou nos livros lançados por aí (que deveriam ficar na prateleira da pieguice), constatamos uma “coisificação do deficiente”. Então, a grande questão para esse post é: “Que ‘eu’ é esse que se vende?”

O que vemos em palestras, matérias da TV e em alguns livros, é uma postura “coitadista” ou heróica do deficiente. Historicamente falando, já ocupamos a posição de vilões, dignos de toda indiferença da sociedade. Já fomos escondidos e rejeitados. Hoje a visão da deficiência perpassa a piedade e o heroísmo. Comumente somos taxados de "exemplo de vida" ou "superação”. Mais que isso: são os termos utilizados por alguns deficientes para se definirem, porque é essa a postura que adotam no dia a dia. Então como as pessoas vão pensar e agir de outra maneira conosco se nós mesmos nos intitulamos e agimos assim?

Mas pensemos: o que faz um deficiente ser exemplo de vida? Ele seguir sua vida adiante após uma mudança drástica (e muitas vezes traumática), no caso daquele com deficiência adquirida, que após sua reabilitação vai tratar de cuidar de seguir em frente, pois a vida continua? Ou no caso daquele que tem deficiência congênita e tratou de se adaptar ao máximo a um mundo para tocar sua vida adiante? Exemplos? De quê?

Analisemos agora a pessoa sem deficiência: aquela que também tem que batalhar pelos seus objetivos, que  acorda cedo como os deficientes, que usa o transporte público lotado e em péssimas condições como os deficientes, que chega em casa tarde e cansada depois de um dia de trabalho como os deficientes. Essa pessoa também se supera? Superar, no dicionário, significa “ultrapassar, vencer, sobrepujar”, ou seja, as pessoas superam, vencem ou ultrapassam uma doença, mas os deficientes não vencem suas deficiências, apenas reinventam e adquirem um modo peculiar de viver a vida com ela.

Em ambos os casos, as pessoas escolhem lutar (ou não) por uma vida digna (seja ela como for) independente de ter deficiência ou não. Sim, as pessoas batalham e procuram alcançar seus desafios pessoais com ou sem deficiência. Não há nada de mágico no fato de eu e o Dudé termos feito faculdade e sermos pessoas com deficiência, a não ser pelo fato de estarmos numa estatística onde uma minoria da população em geral tem acesso ao ensino superior, por exemplo. O que temos que discutir são as razões econômicas, educacionais, sociais, arquitetônicas, políticas ou de qualquer outra ordem, que não garantem acesso a TODAS as pessoas às universidades de maneira proporcional – inclusive as que possuem deficiência.

A postura “coitadista” ou heróica de muitos deficientes nos revela uma atitude contraditória. Contraditória porque o que se exige é uma equiparação de oportunidades, mas o que se mostra é uma posição inferior (coitado, vítima) ou superior (herói, especial). Sempre que um deficiente topa fazer uma matéria piegas e recheada de sensacionalismo com o intuito de comover o público ou um texto/palestra/livro dizendo: “Olha, se eu faço, você também faz!”, ele lança uma ideia absurdamente disciplinadora, como se todas as pessoas tivessem que dar conta de qualquer recado (no trabalho, nos estudos, na vida sentimental) já que o deficiente (o coitado ou o super-herói) consegue.

Cada vez que um deficiente fala "Olha, olha! Eu faço igual a todo mundo! Eu me superei, sou um exemplo, sou o bom, o abençoado!", ele está apenas provocando à sociedade a trocar a máxima preconceituosa "Tadinho, ele é limitado, incapaz e inútil!" para outra retórica preconceituosa: "Tadinho, olha como ele se esforça pra ser como a gente!". Em que isso ajuda a derrubar estereótipos, preconceitos e barreiras, os principais obstáculos da tal inclusão? Em nada! É impossível combater o preconceito trocando um estereótipo por outro. Aliás, quando os deficientes forem vistos como pessoas em sua plenitude, nem o termo “inclusão” fará sentido, pois ninguém pode ser incluído num universo onde todos somos únicos e diversos.

O que vemos são tentativas de "atos de heroísmo" ou de vitimização em certos deficientes. Atos esses que resultam nas chamadas palestras motivacionais, livros de auto-ajuda, etc. Mas será que é isso mesmo? Será que essa é uma visão de si mesmo enquanto pessoa com deficiência ou talvez esse não seria, digamos, um mercado de estereótipos? Será que o “coitadismo” ou heroísmo não se tornaram marketing pessoal de muitos deficientes?

Há dezenas de pessoas com deficiência que vivem da comercialização de autobiografias, palestras, etc. O que se discute aqui não é o modo de ganhar a vida – Dudé e eu, por exemplo, já demos palestras, entrevistas, escrevemos em blogs, etc, embora nunca tenhamos ganhado um centavo para isso até aqui e não teria nada de errado em ganhar – mas nos questionamos com frequência a respeito do CONTEÚDO dessas práticas.


Embora possa parecer radicalismo, acreditamos que vender a imagem de “superação” em troca de notoriedade e alguns cachês, é irresponsável e leviano; é desconsiderar todos aqueles que se esforçam e se dedicam para mudar uma maneira retrógrada de pensar da sociedade. O que eu, Dudé e um monte de gente (interessada em dizer o que realmente importa) apenas deseja, é que sejamos vistos como pessoas, com direitos e deveres, sem a bajulação de ser “especial” ou o menosprezo de ser “coitado”. É matar a curiosidade das pessoas em relação aos nossos limites, de uma maneira leve e bem-humorada e não que isso se torne motivo pra dizer que somos melhores ou piores que os não-deficientes. É dizer que as pessoas são diversas... altas, baixas, gordas, magras, brancas, pretas, pardas, ocidentais, orientais, com ou sem deficiência. Simples assim!


É inegável que conseguimos muitos avanços no que diz respeito aos nossos direitos. Porém, muito ainda há de avançar para chegarmos ao ponto que queremos e merecemos. Afinal, foram anos de erros e acertos. E aí existe a necessidade de se verificar o que deu errado e pontuar o que está dando certo. Acalenta-nos ver gente bacana dizendo por aí o que realmente interessa, tais como algumas delas que destacamos nos vídeos desse post: Jairo Marques, Flávia Cintra (vídeo acima), Alessandro Fernandes, Lak Lobato, Tabata Contri, Márcia Gori, Aimee Mulins, Adelino Onozes, etc. O que esperamos é que não haja mais espaço (e paciência) para ouvir alguém dizer que viver é um desafio  só porque “nasceu com” ou “adquiriu” outra condição de viver o mundo. O que almejamos, é ver gente dizendo que cansou de viver à margem de seus direitos e que hoje grita, mobiliza, escreve, atua para que todos nós, deficientes ou não, sejamos vistos de igual para igual. Sem muros, sem a troca de estereótipos. Existe a necessidade de proliferarmos a idéia do "nem acima, nem abaixo, mas no mesmo patamar" dentro de uma discussão madura e com conteúdo. E você, que “eu” é esse que vende?

Escrito por Karla Garcia e Eduardo Martins.

* Para os cegos: na imagem da postagem há alguns bonecos coloridos no formato da figura humana dando as mãos uns aos outros, inclusive um cadeirante.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Deficiência Intelectual e Mercado de Trabalho

Karo leitor, hoje é Dia do Trabalho. Considero um data muito importante, não só pelo fato de ser folga, emendarmos um feriadão e ficarmos com as canelas finas pro ar (eita nós!), mas porque acredito que o trabalho nos dignifica de muitas maneiras. É no trabalho que temos a oportunidade de conhecer pessoas e respeitar o outro, reconhecer nossas aptidões e nos realizarmos como seres produtivos. Como sou apaixonada pelo meu trabalho na APAE com deficientes intelectuais, resolvi aproveitar essa comemoração e compartilhar um texto que escrevi a pedido da Carlena Weber para a Desenvolver-RS, que é uma empresa especializada em consultoria e empregabilidade de pessoas com deficiência no Rio Grande do Sul. Bora lá?

Inúmeros mitos e preconceitos rodam o universo da deficiência. Comumente, as pessoas tendem a generalizar uma característica para cada grupo de deficiência. Por exemplo: todo cego ouve muito bem, todo surdo comunica-se apenas por LIBRAS, todo cadeirante é assexuado e todo deficiente intelectual é incapaz de aprender. É bem provável que todas as certezas pré-concebidas (e nem sempre verdadeiras) sobre a pessoa com deficiência acentuem-se quando falamos do deficiente intelectual. Entretanto, é importante pensarmos que todas as pessoas possuem suas particularidades e habilidades em níveis diferentes, inclusive as pessoas com deficiência. Em relação ao deficiente intelectual – ao qual vou me deter nesse texto, vale esclarecer que o seu efetivo entendimento, seja no campo escolar, social e/ou profissional, depende significativamente da sua capacidade de compreensão e do modo como a informação é repassada. De modo geral, é necessário conversar utilizando vocabulário simples e repassar a instrução de maneira direta e objetiva.

Para que um deficiente intelectual entre no mercado de trabalho, faz-se fundamental haver um processo de análise do perfil do candidato e da vaga a ser preenchida. Assim como é procedido com todas as pessoas, procede-se também com a pessoa com deficiência. Se o funcionário com deficiência intelectual conseguirá trabalhar no computador, se poderá alimentar-se sozinho e quanto tempo levará para fazer as refeições, se usará o transporte público até o trabalho, se precisará ir mais vezes ao banheiro – dentre outras dúvidas – são especificidades a serem verificadas antes da contratação e de acordo com o que a empresa espera do funcionário em determinado cargo.

Eventualmente, o funcionário com deficiência intelectual executará suas tarefas em outro tempo e de outro modo, o que não significa que seja menos eficiente. Ter deficiência implica em ter uma defasagem em algum aspecto (fisiológico, em geral), mas não em todos. Empregar alguém com qualquer deficiência trata-se de um investimento de múltiplas facetas. Tanto é verdade que, na maioria dos casos, os empregadores desfilam elogios aos seus funcionários com deficiência, não só pela dedicação ao trabalho que costumam despender, mas também pela possibilidade de ganho social e de quebra de velhos paradigmas que provocam em toda a empresa. É imprescindível conferir-lhes o status de pessoa antecedendo a condição da deficiência. O segredo, então, reside numa palavra-chave: oportunidade.

Superbeijo... em especial à equipe da Desenvolver-RS: Carlena, Cris, Márcia e Simone Brum (da Fagundes).

* Para os cegos, a descrição: na foto da postagem há um rapaz com Síndrome de Down de terno e gravata em ambiente de trabalho.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Identificações



Porque a vida é feita de verdadeiros encontros, karo leitor.
Olha lá eu e a pequena Manu na Folha de São Paulo:


Agradecimento especial ao amigo e jornalista Jairo Marques que está comigo na foto acima e que me permitiu contar essa história.

Beijo, beijo.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Conviva!

O fato de ter deficiência sempre rendeu-me boas histórias, principalmente com crianças. Recentemente, nos reunimos para almoçar na casa da tia Alice. Encontrar-se para a comilança nos fins de semana e em datas comemorativas é um hábito da família Luiz e esse seria apenas mais um almoço, não fosse pela surpresa que recebi. Na porta da casa da tia Alice há um pequeno degrau de uns 2cm - que dou conta de subir tranquilamente. Ao chegar na varanda e me aproximar da porta, o Artur (que é filho de uma prima), me viu chegando. Sem que ninguém esperasse aquela reação, ele correu até a porta e, de frente pra mim, esticou as duas mãozinhas no intuito de me ajudar a entrar. Mesmo não precisando da ajuda, eu dei as mãos para ele e deixei que ele me ajudasse. Obviamente ficamos todos atônitos com tamanha percepção de uma pessoinha de apenas 2 anos. De lá pra cá, em todas as vezes em que ele percebe que estou perto de uma porta ou querendo levantar de um sofá, ele já diz: "Me dá a mão, Kaká!"

Além disso, o Artur já ensaia falar em LIBRAS com a tia Rosane, que é surda e madrinha dele. Tenho percebido que, assim como aconteceu comigo, os conceitos de inclusão e preconceito farão pouco sentido para o Artur. Estar com pessoas com deficiência e respeitar as diferenças será algo tão natural para ele, assim como foi para mim, para a tia Rosane, nossos familiares e amigos. Afinal de contas, o que é normal? É ser alto, baixo, loiro, moreno, magro, gordo, branco, preto, pardo, oriental ou ocidental? A tal ''normalidade" é muito relativa, e até desnecessária. Quando escrevi o post do Korpo com Ká, enfatizei justamente que não há perfeição para ansear - não para mim, ao menos. Somos todos singulares, potenciais e limitados em algum aspecto. Ou alguém aí tem a arrogânia de considerar-se perfeito? Se até um bebê de 2 anos entende um pensamento tão complexo desse, por que adultos ainda teimam em dar murro na ponta da faca chamada PRECONCEITO? A deficiência é  um risco quando entramos num carro, por exemplo, ou uma condição inerente à vida, que quase todas as pessoas experimentarão algum dia, caso cheguem na velhice. Portanto, não se dê o trabalho de ser preconceituoso(a). Esse sentimento nada mais é do que uma idéia pré-concebida (e até um medinho), quase sempre equivocada, sobre algo que não o(a) levará a nada engrandecedor.

Em todas as vezes em que uma criança fica me olhando no shopping e pergunta "Mãe, por que aquela moça anda daquele jeito?", eu sou o constrangimento de carne e osso para os pais das crianças e acho um barato de ver a cara sem graça deles. Aí eu faço a minha parte: sorrio... e rezo para a Nossa Senhora dos Moçoilas Deficientes que a mãe ou o pai da criança seja minimamente sensível para desmistificar sobre as diferenças entre todas as pessoas, porque, vamos combinar: essa é uma ótima oportunidade para cortar o mal do preconceito pela raíz. Né não? Nos últimos tempos, fala-se mais sobre tecnologias assistivas, sobre os direitos das pessoas com deficiência e essas, por sua vez, vem aparecendo mais nas ruas, no mercado de trabalho, na mídia, etc. No meu ponto de vista, ninguém teme aquilo que conhece de perto, então minha dica é: permita-se conviver com a diferença. Estou aqui usando o Artur como exemplo para falar que 3 ou 4 gerações da minha família - que passaram por diferentes momentos históricos dos movimentos relacionados à deficiência - cultam o mesmo conceito: aquele em que a diferença faz parte da diversidade e do mosaico humano. E lá tem koisa mais perfeita que isso, karo leitor?

Superbeijo!

* Para os cegos, a descrição: na foto da postagem está o Artur, um dos personagens centrais desse texto, com as bochechas e o nariz pintados imitando um coelho.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Karla-deficiente x Karla-psicóloga

Karo leitor, como você já deve saber, sou psicóloga. Durante os cinco anos de faculdade de Psicologia, conhecemos muitas teorias, estudamos abordagens diferentes, fazemos estágios e quase enlouquecemos com o tal Trabalho de Conclusão de Curso (vulgo TCC ou monografia). Lembro-me que há quase 2 anos dei uma entrevista a uma rádio e a jornalista me perguntou se eu tinha feito Psicologia para resolver coisas minhas (outra para a sessão “pérolas da minha vida”!). Minha vontade foi dar uma gargalhada, rolar no chão e dar três pulinhos, mas, como não sei pular e sou uma moça educada, apenas respondi que se você tem algum trauma ou algo muito sério para resolver, procure um psicólogo e não caía na besteira de ir para o curso de Psicologia para isso. Bom, dentre os preceitos fundamentais sobre a relação terapêutica entre o paciente e o psicólogo estão a transferência e a contratransferência. Se você não é da área dos filhotes de Freud, fique frio... explico simples e resumidamente: transferência é o conjunto de sentimentos positivos ou negativos que o paciente dirige, inconscientemente, ao terapeuta em decorrência de suas vivências anteriores. Por exemplo: às vezes, a pessoa projeta a figura do pai ou da mãe no(a) terapeuta e aí consegue trabalhar algum conteúdo (se o trabalho for bem feito). Já a contratransferência é a reação inconsciente do terapeuta à pessoa do paciente. O que tudo isso quer dizer, na prática? Quer dizer que a transferência se faz necessária ao trabalho terapêutico e o terapeuta deve saber trabalhá-la com o paciente; ao passo que a constratransferência exige um pouco mais de cuidado por se tratar dos conteúdos do próprio terapeuta. Aprendemos, então, sobre a importância da imagem do terapeuta e neutralidade das roupas, dos acessórios e as posturas éticas. E o que isso tem a ver com deficiência? Tudo!

No quarto e no quinto anos de faculdade, tive que fazer os estágios obrigatórios. Trata-se de um momento esperado e temido, mistura de ansiedade, receio e vontade de colocar todo seu conhecimento à prova - ainda que seja pouco. No estágio acontece um jogo amistoso entre dois times: você e seu medo. Para mim, o estágio era um compromisso de final de Copa do Mundo e ao pensar neles, senti-me obrigada a pensar em como a deficiência impactaria o paciente e como eu reagiria, caso isso "entrasse em campo". Embora tenhamos que "suspender" quem somos, olhar o paciente sob a lente profissional e fazer cara de paisagem mesmo que ouça o outro dizer que matou a vovózinha, minha pergunta era: devo "suspender" a deficiência? Como colocá-la em modo stand by? Era possível manter isso fora do processo terapêutico?

Penso que não. Na época acreditei (e acredito ainda hoje) que não poderia desfazer-me da deficiência como se usasse um decote indiscreto, um piercing no nariz, uma tatuagem gigantesca, um brinco extravagante ou uma maquiagem inspirada no Carnaval. Não há disfarces para uma perna renga, uma mão "malacabada" e um andar diferente, não é mesmo? E tudo bem que não haja! Assim que me formei e montei consultório, a questão era fazer a deficiência parte do meu trabalho. Jamais poderia (ou vou poder) tomar minha deficiência como foco, porque na posição de terapeuta, o que está em análise é sempre o conteúdo do outro, não o meu. O que devo perceber é que meus limites, aqueles da vida cotidiana, fazem a Karla-deficiente indissociável da Karla-psicóloga. Então, além de todo meu aparato técnico e intelectual disponível, eu mandei fazer móveis ergonomicamente testados por mim: mesa de altura satisfatória, gavetas fáceis de abrir e chavear, armário prático onde eu tivesse independência para pegar e guardar os materiais. Cuidei também para que a maçaneta da porta fosse fácil de manejar, que o tapete da sala fosse antiderrapante e que as poltronas fossem altinhas para que eu não precisasse fazer um passo de mestre-sala e porta-bandeira toda vez que tivesse que levantar. Garanti, assim, um ambiente acessível no setting terapêutico, para privilegiar o processo de escuta do outro e não o meu processo de enfrentamento de barreiras físicas. Tudo isso porque sei que as pessoas não procuram psicólogos para dizer que está tudo ótimo, procuram o cuidado. E será que uma pessoa deficiente que, teoricamente, inspira cuidados, pode cuidar do outro?

No último ano de faculdade, quando fiz o estágio em Psicologia Clínica, deparei-me com essa pergunta e, em seguida, com a resposta. Minha primeira paciente, que tinha dificuldades emocionais para sair de casa, um belo dia, sem que eu pudesse esperar, me disse: "Quando sinto medo de sair na porta, penso que você, com toda sua suposta dificuldade física, tá aqui estudando pra me ajudar e ajudar outras pessoas. Aí me animo a vir na terapia.". Acredito que tive a postura mais correta (e coerente) com a declaração da paciente: não me envaideci, tratei de trabalhar a correlação feita por ela entre uma dificuldade e a outra (a minha e a dela). Tempos depois, no início de 2010, quando fui contratada pela APAE, fui lidar de frente com essa questão. De repente eu era psicóloga numa instituição cujo objetivo era cuidar (inclusive) psicologicamente de seus alunos com deficiência e suas famílias. Tenho uma amiga que diz que não poderia exercer papel melhor: sou a mensagem subliminar ambulante de que é possível. Atender os pais dos alunos e ouvi-los dizer que passaram a ter mais esperança ao me verem trabalhando lá, não serviu para inflar meu ego porque não pretendo ser exemplo de nada e não podemos misturar as koisas, mas para reafirmar minha idéia de que ser psicóloga e deficiente pode servir como fato identificador do paciente e/ou ressignificador dos pré-conceitos que ele traz sobre o universo da deficiência e, de certa forma, ajudá-lo. Alguém tem alguma dúvida do quanto amo meu trabalho?

Beijo grande.

* Revisão e colaboração textual do professor Adriano Henrique Nuernberg.
** Para os cegos, a descrição: na foto da postagem há um sofá divã branco (móvel utilizado em consultórios de psicólogos). 

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Perguntas, frases e termos cretinos em relação à deficiência.

Ao longo dos meus 27 anos, acumulei (e vou continuar acumulando) "pérolas" que as pessoas dizem ou perguntam em relação à deficiência. Sempre levei com bom humor, tranquilidade e relevei as koisas mais absurdas/cômicas que ouvi. Nunca me senti agredida por acreditar que, em cem por cento dos casos, as pessoas disseram ou perguntaram por falta de conhecimento mesmo - não por maldade. O fato é que, como trabalho com a deficiência e essa também é a minha identidade, adotei uma postura mais política (ou seria politizada?) nos últimos tempos... o que, automaticamente, levou-me à irritação com o uso indiscriminado de termos inadequados ao mundo dos deficientes. Tenho absoluta certeza de que muitas (ou quase todas) pessoas com deficiência vão se identificar com o conteúdo desse texto, sejam elas surdas, cegas, cadeirantes, que nasceram já com a lataria amassada e/ou meio kapenga (tipo eu... ho ho ho). Talvez as pessoas sem deficiência também se identifiquem em algum momento por terem dito/perguntado alguma "pérola" dessas que vou citar e comentar abaixo.

Termos cretinos:
* Portador de deficiência. Recorri ao bom o velho dicionário para não ficar só na minha impressão (que estava correta). "Portar" significa carregar, conduzir ou trocar. Agora me diz, karo leitor, desde quando eu porto meu joelho remendado? Desde quando os cadeirantes podem simplesmente se desfazer da cadeira de rodas como se tirassem o sapato? É tudo uma koisa só, um estado de viver o mundo. Ou será que daqui a pouco teremos que tirar porte de deficiência?
* Portador de necessidades especiais. Gentem, quem não tem uma necessidade especial nessa vida? Eu tenho tantas! Tenho necessidade de água, chocolate, amendoins e livros. Para alguns, a necessidade especial é uma rampa, para outros é ter uma bolsa Victor Hugo, para outros é simplesmente ter o que comer. Termo muito relativo, não? 
* Especial/excepcional. Bom, vejo aí uma tentativa (ridícula) de supervalorizar a deficiência como forma de compensar "a desgraça do coitadinho do deficiente". Dispenso maiores explicações.

Então qual é a forma correta de se referir aos 'matrixianos'? Diga apenas "pessoa com deficiência" ou "deficiente" e esqueça todo o resto! Kombinado com Ká?

Frases e perguntas cretinas:
* Fulano tem problema (é deficiente). Quem tem problema é quem pensa isso. Aliás, o que é problema? E quem não tem problema? 
* Tadinho, ficou com problema (tornou-se deficiente). Ninguém é coitado, minha gente. Sem mais. 
* É mais fácil nascer com deficiência do que adquiri-la depois de certa idade. Sinceramente não acredito nisso. É muuuuito relativo. Ter perdido uma capacidade pode ser tão frustrante (ou não) quanto nunca tê-la tido. As dificuldades e as condições de enfrentamento à deficiência dependem de uma série de questões e variam de pessoa pra pessoa. Portanto, não sejamos generalistas!
* Com quantos caras "normais" você já se relacionou?. Isso eu ouvi de um cara (supostamente "normal") metido a intelectual (aham!), não faz muito tempo, com quem eu tive um affair (chique demais essa palavra... risos). O fato é que a pergunta dele me chamou a atenção por parecer que, como sou deficiente, só devo ter me relacionado com outros 'malacabados'. Que ingênuo! Logo virou desaffair... risos.
* Tal lugar é deficiente ou Polícia deficiente. Infelizmente, esse é um termo ainda bastante usado, inclusive na rede entre as próprias pessoas com deficiência na internet. Muitos se expressam desse modo para se referirem a um lugar precário ou um serviço que não funciona bem, o que acaba remetando à idéia de que ser deficiente significa ineficiência. Que mentira! O contrário de eficiente é ineficiente, certo? Então vamos parar de escrever "dEficiente" e querer riscar o "d" daquilo que somos.

Então como se irritar menos diante de tanta koisa absurda? Bem, apesar de não poder usar salto, eu não desço da sapatilha, retoco o batom e informo as pessoas. Na medida do possível, eu explico as koisas com muita educação, pois, fazendo a linha rebelde, só ganhamos a antipatia dos outros. Então todo cuidado é pouco para não criarmos o movimento inverso: com intenção de incluir e acabar segregando ainda mais. Acredito que informação é o grande remédio e a grande vacina contra todas as bobagens que ouvimos ou dizemos por aí. Bora lá disseminar as doses?

Beijos esperançosos.

- Na imagem do post, uma moça está sentada numa cadeira de rodas com os braços abertos de frente para o mar.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O korpo com Ká

Conta a Mitologia grega que Procusto era aquele que convidava os viajantes para repousar no leito de sua pousada na estrada que ligava Mégara a Atenas. Mostrava-se gentil e hospitaleiro, fazendo seu convidado deitar-se, mas exigia o completo ajuste do sujeito ao tamanho exato de sua cama de ferro. Se a pessoa fosse maior que a cama amputava-lhe as pernas, se fosse menor era esticada até atingir o tamanho desejado. Esse horror só teve fim quando o herói Teseu fez a ele o mesmo que ele sempre fazia às suas vítimas: colocou-o na cama, mas um pouco para o lado, sobrando assim a cabeça e os pés que foram amputados pelo herói.

Percebo no mito de Procusto que ele, assim como nossa sociedade, só pode conceber a gentileza e "hospedagem" se a pessoa estiver dentro do padrão desejado (do tamanho da cama). Ter em sua presença um corpo maior ou menor era um problema para Procusto, o que lhe levava à eliminação do desvio**. Em geral, as pessoas só são aceitas às custas de torturas impostas por um padrão estético exigente. Na minha interpretação, os corpos menores que a cama que Procusto não tolerava são aqueles ditos "normais", fora apenas do padrão por ter pouco seio ou um nariz avantajado, por exemplo. De certa maneira, esses corpos*** ainda cabem na cama e há uma tentativa de encaixá-los através das cirurgias plásticas, das horas a fio numa academia de ginástica, dos tratamentos estéticos que prometem milagres, etc. O corpo deficiente não, ele nem cabe na cama, é maior, não há outra saída senão cortá-lo e limitá-lo à impossibilidade do convívio. Obviamente estou sendo um tanto quanto generalista. Sei que essa prática (embora me pareça arcaica) ainda acontece e me causa muita estranheza. Aqui em casa me fiz gente acreditando que as pessoas estavam ocupadas demais para ficarem reparando nas minhas canelas finas ou nas minhas mãos assimétricas. Quando era criança, lembro de ter tido, umas duas ou três vezes, um ensaio de receio quanto a alguma roupa, ao que papai ou mamãe responderam: "E daí? A voltinha da orelha é o mais difícil de ser feito e isso saiu direitinho!"... risos.

Essa minimização do culto ao corpo feita pelos meus pais, introjetou em mim um conceito de que realmente ser diferente era normal. Não estou, de forma alguma, desdenhando a estética - até porque sou uma mulher muito vaidosa. Mas entendo que não podemos ser escravos da aparência e da conformação aos padrões. Por que temos que adorar tanto a forma se o que mais importa não é aparente? Esse pensamento me levou a tomar alguns sustos depois de estar "velhusca". Aos 19 anos, tirei uma foto da minha mão ao lado da mão do meu ex-noivo para registrarmos a ocasião do compromisso. Foi ali que percebi que minha mão era diferente. Na época eu nem imaginava em comentar ou escrever qualquer koisa em relação a isso. Foi uma constatação e só. Mês passado, fazendo uma brincadeira com minha prima no jardim na casa da minha avó, tirei as fotos que estão nesse post. Agora sim, a proporção das reflexões que surgiram a partir daí foi gigantesca, com a possibilidade deliciosa de compartilhar aqui com você, karo leitor. Tive as cirurgias fotografadas e os pés vistos de outro ângulo. Achei tudo muito feio e lindo. Feio obviamente porque eu estava me olhando de fora e tenho mesmo linhas fora do padrão; e lindo pela significação que o corpo tem pra mim. Se não fossem minhas cicatrizes, eu estaria de pé? Não. São os pés tortos que me levam para o mundo, certo? Então eu amo como sou simplesmente porque tudo isso é meu.

Passei, então, a me perguntar se as pessoas pensam que eu invejo um corpo não-deficiente. Não, eu nunca desejei ter um corpo "normal". A deficiência é meu modo de vivenciar o mundo, não um detalhe. A deficiência apenas é. Aliás, estou pensando em breve fazer uma postagem sobre "termos cretinos", dentre os quais estão aquelas frases que só revelam o mal-estar que as pessoas sentem a essa condição: "Fulano nasceu com problema (deficiente).", "Depois que fulano ficou com esse problema (tornou-se deficiente)...". O fato de eu ser deficiente talvez seja um problema para as outras pessoas, mas para mim não é. Foi a deficiência que me trouxe até aqui e me imaginar não-deficiente seria imaginar alguém que nunca existiu, simplesmente porque eu seria outra pessoa. Você aí, dito "normal", já imaginou como reagiria caso tivesse nascido com deficiência? São fantasias inúteis, tanto quanto aquelas que poderiam me privar de ir à praia, de usar roupa curta, de conhecer pessoas, etc. Incomodando-me ou não, sei que as pessoas vão olhar, então eu nunca tive outra escolha senão assumir aquilo que sou. Quantos mais eu mostrar as canelas finas, as articulações congeladas e os remendos dos joelhos, mais as pessoas estarão familiarizadas, menos "ibope" darei à Procusto.

Não, que nada! Eu não sou a versão feminina de Teseu, o herói desse mito. Minhas condições de enfrentamento à deficiência é que são. E não devo isso a um dom divino, não sou um ser melhor ou abençoado. Não sou heroína. Apenas tive pais sensatos que construíram comigo as forças de Teseu.   

Megabeijo.

* Supervisão textual do professor Adriano Henrique Nuernberg.
** Sobre o "corpo desviante", sugiro a leitura dos textos da Lígia Assumpção Amaral.
*** Sobre o "corpo canônico", sugiro a leitura dos textos da Malu Fontes.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Aos meus Carlos!

Karo leitor internauta, há algum tempo venho passando por uma série de reflexões e questionamentos sobre o corpo. Faz uns dias, comecei a escrever um texto em que eu pudesse discutir esse tema por aqui. Meu desejo principal é falar do significado do corpo com deficiência. Do meu corpo. O korpo com Ká. Entretanto, julguei que seria importante falar antes da minha deficiência, da lesão em si, para depois poder falar das atribuições, sentidos e significados que ela me trouxe. Ao terminar esse texto, percebi que estava longo demais e, por isso, resolvi separá-lo em dois textos (mesmo que as koisas todas não se separem). Percebo também que, sem querer, segui a ordem histórica dos movimentos da pessoa com deficiência: num primeiro momento falando sobre a lesão; num segundo momento falando sobre a vivência da deficiência, como ela me constitui(u) como pessoa. Por se tratar de um relato sobre minhas convalescenças (como diria Lígia Amaral), esse post serve também como brinde aos 10 anos que estou andando sem órteses.

Depois de um tempo após a criação desse espaço reparei que eu não havia explicado nada sobre a deficiência no perfil do blog. Não foi à toa. Para mim, é tão óbvio ser o que sou, que não me atentei a explicar isso a você, leitor. Muitas pessoas, então, passaram a perguntar por e-mail qual é o tipo de deficiência, se sou cadeirante, etc. Vamos lá falar do meu korpo, então. A Artrogripose Múltipla Congênita (carinhosamente apelidada por AMC), como o próprio nome sugere, refere-se a um congelamento das articulações (cotovelos, joelhos, ombros, tornozelos) que ocorre no desenvolvimento fetal, o qual implicou na minha mobilidade reduzida.  Está aí a resposta: eu não sou cadeirante. Tenho mobilidade reduzida. Flexiono pouco os braços e as pernas, não subo degraus altos (escadas), não tiro/coloco as meias sozinha, não prendo o cabelo (só penteio), não sei pular e correr, não tenho um excelente equilíbrio corporal... provavelmente esqueci de citar alguma dificuldade, mas até que eu me viro bem. Sim, eu ando, escrevo, digito, uso talheres, dirijo, passo o shampoo, maquio-me, troco de roupa, mexo as orelhas, estalo a clavícula esquerda e levanto uma só sobrancelha... risos.

Eu, 1986
Fico imaginando como foi difícil para os meus pais, receberem a notícia de que tinham ganhado um bebê com deficiência ainda no início dos anos 80. Por tudo que já conhecem na leitura de post anteriores, sabem que se saíram muito bem! Mamãe sempre conta que me "esconderam" por uns três dias depois do meu nascimento. No terceiro dia, sob ameaça de um escândalo dela, levaram-me até o quarto onde ela se recuperava do parto. Sem que ninguém soubesse, nesse meio tempo, papai já havia me registrado com o nome dele. Ele, Carlos; eu, Karla. Aliás, eu sempre deixei mamãe constrangida nos consultórios médicos porque, sempre que iam preencher minha ficha eu dizia: "É Karla com Ká!"... risos. Essa mania rendeu o nome do blog. Voltando ao meu nascimento, quando me trouxeram para casa, papai ouviu meus avós conversando baixinho dizendo que eu "não vingaria" (hoje sou eu que levo vovó no médico, na padaria, na manicure, etc.). Depois de um tempo, meus pais observaram que meu desenvolvimento cognitivo era normal. Eu comecei a falar por volta dos 8 meses e, com 1 aninho, já contava até 10 por conta dos exercícios físicos que mamãe fazia e contava repetidamente (minha simpatia por números parou por aí... risos). Com 4 ou 5 anos, mamãe me alfabetizou em casa. Lembro até hoje que escrevíamos e desenhávamos com uma canetinha marrom. Ela desenhava um barquinho e escrevia embaixo B-A-R-C-O. Quando cheguei à escola, já sabia ler e escrever. Eu segurava a caneta de um jeito diferente do qual seguro hoje... muitas koisas foram se adaptando com o passar do tempo. Foi nessa época (dos 4 anos) que fiz as primeiras 4 cirurgias nos joelhos (tenho no currículo 3 internações e 10 cirurgias). Dessa fase de hospital eu não recordo de nada. Aos 6, fiz 2 cirurgias nos pés. Aí lembro bem do dia em que telefonaram do Hospital Infantil de Florianópolis avisando que eu seria operada em agosto de 1991. Parece que estou vendo os bancos de espera do hospital, todos pintados num tom holandês ("laranja mecânica") e a ala infantil cheia de margaridas feitas de cartolina vermelha e verde coladas no teto - ainda tenho uma delas guardada como recordação da minha estadia por lá. Não esqueci dessas flores porque, no dia em que operei os pés, chorei a noite inteira olhando para elas. No dia seguinte, descobriram que haviam deixado um dedinho do meu pé dobrado dentro do gesso. Para me agradar, no dia em que recebi alta, um dos residentes fez um balão com uma luva cirúrgica e eu fiquei chateada porque estourou antes de eu chegar em casa. Aqui fica um suspiro, pois eu gostaria de lembrar do nome de todos os profissionais que cuidaram de mim, tanto no hospital, quanto no Centro de Reabilitação que frequentei desde que nasci até uns 7 ou 8 anos de idade, mas não consigo lembrar de nenhum. Após essa fase, eu passei a fazer fisioterapia com o Isamir, aqui em Garopaba mesmo. Atualmente ele é meu colega de trabalho na APAE.

Hospital Infantil Joana de Gusmão
Lembro que era uma rua sem saída, uma ladeira, com uns 300m. No alto da rua está, até hoje, o Hospital Infantil e, logo mais abaixo, o Centro de Reabilitação. Na calçada, em frente ao prédio branco do Centro havia um trailler em formato de lanchonete (palavrinha mais antiga, hein?), cujo dono era conhecido por todos como Carlão. Um homem muito alto, barbudo, alegre e com uma pança levemente avantajada. Lembro que meus pais ficaram amigos dele pela frequência com que parávamos lá. Uns 15 anos depois que deixei de ir à Reabilitação, eu já morava em São Paulo e numa das minhas férias por aqui, decidi que precisava visitar o Carlão. Quando cheguei àquela rua, revisitei a minha história. Vi o Carlão com o cabelo e a barba brancos, a pança um pouco maior, o sorriso de sempre um pouco mais alegre naquela hora por ter me visto andando. Só pude chorar. Como agora, como todas as vezes que puxo esse arquivo da memória. [Pausa] Alguns meses depois que o visitei, Carlão faleceu.

O mais interessante é que, embora possa parecer sofrido para uma criança ter internações, cirurgias e passar mais tempo em fisioterapia do que brincando, correndo, andando de bicicleta, eu me lembro disso tudo com muita alegria. Porque eu estive inteira em todas essas lembranças. Eu brinquei de verdade quando pude e do jeito que pude. A minha infância não foi roubada pela deficiência. Fui criança feliz com deficiência. Até os 12 anos (mesmo com todas as intervenções médicas do Dr. Carlos), eu só andei com órtese (iguais as do Forest Gump). Era um sufoco. Colocava os aparelhos de manhã antes de ir pra escola. Tinha que usar meia de lã direto, pois as órteses de ferro machucavam e até, essa idade, eu só usei bota ortopédica (em seguida fui apresentada aos tênis). Quando chegava a noite, eu tirava os aparelhos para tomar banho e, sem eles, não andava mais. Foi aí que mamãe deu um basta. Tirou, por conta própria, a obrigação de usar as órteses. Passei a fazer execício com ela pela casa. Eu andava mal e pouco. Dava uns cinco passos e já estava com a língua arrastando no chão. Aos 16, conheci um médico de Porto Alegre (outro Dr. Carlos) que me operou e me colocou de pé. Inovou, prometeu e cumpriu. Mesmo contrariando meu médico catarinense (que disse que eu não andaria se fizesse essa cirurgia), eu topei operar em Porto Alegre. Papai deixou essa decisão por minha conta - como todas as outras. Não sei se foi porque não lembro das outras recuperações ou se porque não foram tão sofridas, mas a recuperação dessa última ida ao hospital foi a fase mais difícil que enfrentei. Além das dores e do incômodo de usar gesso por 106 dias, eu vivi esse tempo divida entre a possibilidade de andar e o desdenho do ortopedista que cuidou de mim desde que nasci. Valeu a pena! Valeu muito a pena! Quando tirei os gessos, eu estava andando. Obviamente, levou um tempo para que eu pudesse aprimorar o caminhar - como na vida, a gente aprimora sempre que permite. Continuo aprimorando.

Se, como diz Gonzaguinha, somos em corpo e alma o produto das lições diárias de outras tantas pessoas, em parte, sou o que se fez das mãos de afeto de meu pai Carlos, da precisão cirúrgica dos Drs. Carlos e das mãos confeiteiras de Carlão. Meu caros... meus Carlos. Dentre as pessoas que não estavam diretamente presentes nas minhas rotinas de internação, Carlão, foi o único nome que nunca esqueci. Carlão alimentava, não só meu corpo com suas coxinhas maravilhosas e aquele suco mais doce que rapadura, mas nossas almas com muita atenção e zelo. Em nome dele agradeço a todos os profissionais que cuidaram de mim, inclusive aos Doutores Carlos. Ao papai, o Carlos mais importante, o agradecimento eterno por ter me dado a vida e o nome: Karla com Ká.

Tim-tim!

Feliz 2012, karo leitor internauta!
Beijo grande.

* Supervisão e colaboração textual do professor Adriano Henrique Nuernberg.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Prece pra Iemanjá

Que Papai Noel, que nada! Na atual circunstância, me resta acreditar em Iemanjá!
Eu, como adoradora dos ares, dos aviões e dos paraquedas, venho publicamente, na maior cara-de-pau, pedir que a Rainha do Mar faça um milagre dos bons. Pois é, querida Iemanjá, infelizmente não nasci para o mar, então meu estômago não me ajudou a descobrir o nome e a origem do rapaz que só vi no embarque e no último dia de passeio no cruzeiro. Ou seja, não poderei dar as coordenadas - eu avisei que se tratava de um milagre. Peço, então, com todo karinho, para que seu radar seja infinitamente melhor do que o meu e dê um "jeitinho brasileiro" para que aquele moço bonito, alto, com pele de pêssego e com o sorriso mais branco que o casco no navio, entre nesse humilde blog e faça um kontato com Ká. Pense bem, Iemanjá... logo eu, que raramente me interesso, que venho atravessando meses de muita exigência e restrição ao sexo oposto, fui logo me encantar à primeira vista - isso pode, sem dúvida, ser considerado também um milagre... risos. Caso meu pedido seja atendido, depositarei flores na praia mais próxima!  

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

(re)Konhecimento aí vou eu!

Recontar a própria história, revisitar o passado, narrar os elementos fundamentais da vida profissional e acadêmica que esse texto exige é uma tarefa árdua. Entretanto, me fascina poder dar forma em palavras os momentos que construíram minha carreira como psicóloga, até então. Confesso que, o próprio exercício de relembrar e escrever, é por si só uma fantástica possibilidade de ressignificação do vivido, cujo objetivo demarca minha postura diante do mundo enquanto sujeito e, consequentemente, enquanto psicóloga. Embora não possua uma vasta experiência profissional, rekonheço que me encontro sob novas configurações cotidianamente, justamente por acreditar que estou na condição de ser humano e, portanto, “sujeita” a todas as conjecturas que me cercam.

Órtese
Lembro do meu primeiro dia de aula na pré-escola. Eu usava um aparelho ortopédico de ferro nas pernas e botas ortopédicas, como na foto - aliás, eu só calcei sapatos comuns aos 12 anos quando, por conta própria, minha mãe resolveu tirar os aparelhos e passei a aprender a andar sem eles até as cirurgias, aos 16 (em breve farei uma postagem sobre isso). Vestia, naquela ocasião da escola, a camiseta branca de manga curta e a bermudinha azul, uniforme tradcional dos colégios estaduais na minha época. Tenho certeza de que minha mãe expôs minha deficiência de propósito. Na verdade era um hábito; ela jamais deixou de me levar em algum lugar ou de vestir roupa curta em mim por isso. Então meus colegas da escola ficaram curiosíssimos. Eles queriam chegar perto, tocar, conversar e eu achei, no mínimo, engraçado. Lá pelas tantas, uma das crianças perguntou se eu estava "daquele jeito" por ter sofrido acidente de carro. Cheguei em casa rindo muito e contando o episódio aos meus pais. Fiquei pensando de onde o colega tinha tirado aquilo. A leveza com que eu e meus pais encaramos essa situação determinou o meu enfrentamento diante de todas as outras situações parecidas com essa. Uma vez, saí com meu pai e uma senhorinha se aproximou e perguntou a ele: "Ela fala?", sem pestanejar eu respondi: "Acho que sim!". Meu pai não sabia como sair daquela saia justíssima, colocada à vácuo, mas depois a gente riu demais. Eu já disse isso aqui, mas vou repetir: não tinha motivo para me incomodar com aquela pergunta, assim como não tenho problema para responder pergunta nenhuma a respeito da deficiência até hoje (nem nunca vou ter), porque é normal que as pessoas queiram saber e quanto mais respondermos e explicarmos, menos daremos chance ao preconceito, aos mitos, à ignorância.


Faculdade rima com saudade!

Bom, durante toda a minha vida escolar e universitária as koisas funcionaram nessa linha: estive rodeada de muitos amigos, as pessoas sempre se prontificaram a me ajudar e jamais deixei de me sentir pertencente ao grupo. Tenho plena convicção de que esse processo aconteceu por uma via de mão dupla, uma troca: a minha postura influenciou a postura das pessoas comigo e vice-versa. Logo, ir para a escola foi sempre uma alegria, um momento bom. Foi nos espaços da escola pública que eu percebi a minha paixão pelas pessoas. Não nasci para a exatidão, para os números ou tabelas periódicas... o que eu amo é a complexidade da humanização. Ir à escola me rendeu apenas boas emoções, o que fez com que estudar se tornasse uma das koisas que mais gosto de fazer. Portanto, me fascina a idéia de poder seguir a carreira acadêmica, a apreensão do conhecimento e a possibilidade de disseminá-lo. 

Em 2008, terminei a faculdade em Santos/SP e o objetivo era fazer pós-graduação. Logo em seguida eu resolvi voltar para Santa Catarina. De lá pra cá, eu tenho trabalhado bastante (cada vez mais, felizmente). Hoje trabalho na APAE e todo dia é uma reafirmação de que faço o que amo. No ano passado, surgiu a idéia de fazer o Mestrado na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), mas tudo ficou apenas no plano das idéias, pois o dia da prova coincidiu com a data de um curso sobre Autismo que eu já havia pago para ir fazer em São Paulo. Não era hora do mestrado - foi nesse curso em Sampa que eu conheci minha amiga querida Gisele Nunes. Alguns meses depois, houve a oportunidade de fazer especialização em Educação Especial aqui em Garopaba. Na hora topei! Era a chance que eu precisava para continuar estudando com a temática coerente com o meus anseios e com o meu trabalho. Atualmente, só me resta terminar a monografia para pegar o "canudo" e ganhar o título de especialista em Educação Especial.

Durante todo esse ano, mesmo fazendo a pós, tive a vontade fixa em passar no Mestrado da UFSC. Com bastante antecedência, li todo o edital do ano passado para me inteirar de como funcionava o processo. Preparei os documentos, fiz a prova de proficiência em língua estrangeira (inglês), organizei meu currículo lattes e pensei no pré-projeto (esse último não fiz, achei melhor esperar para ver se passaria na prova específica). Dia 7 de outubro, logo depois do meu aniversário, fui até à Universidade fazer a prova específica na área 2, cuja linha de estudo são as "Práticas Sociais e Constituição do Sujeito", que é exatamente o que quero estudar tendo como objeto de estudo a deficiência. No ato da incrição para o Mestrado, você já deve indicar um orientador para o seu projeto, caso chegue nessa etapa. Dei uma olhada no currículo dos professores e achei que o perfil do Prof. Dr. Adriano Henrique Nuernberg era o que tinha mais a ver comigo por ele ser um pesquisador desse tema. Eu não sabia, mas o professor Adriano foi quem aplicou a prova naquele dia. Saí da prova absolutamente certa de que não passaria. Algumas pessoas julgam isso como "estratégia para evitar a ansiedade", mas para mim é puro realismo. Eu sou sincera comigo mesma, não haveria motivos para depositar expectativas em algo que eu estava ciente de que não aconteceria. Aliás, caro leitor internauta, você evita uma pá de sofrimento desnecessário quando aprende a analisar até onde vão suas capacidades. E ali, eu sabia que não havia tido subsídio teórico suficiente para ser mestranda da UFSC - por enquanto.

Professor Adriano Nuernberg e eu.
Dia 24 de outubro saiu o resultado, aquele que eu já esperava: não havia passado. Apesar de desejar muito estar naquela lista, não me frustrei, sinceramente. Acredito que as koisas têm uma hora certa para acontecer e um sentido todo particular que cada um dá. E aquela desaprovação significava, para mim, que algo melhor viria. E veio. No dia seguinte, pela manhã, abri minha caixa de e-mail e lá estava uma mensagem do professor Adriano. Isso mesmo, aquele que eu havia escolhido como possível orientador, que aplicou a prova e que eu não fazia idéia do motivo daquela mensagem... risos. Para minha surpresa, o professor Adriano já me conhecia. De onde? Daqui, do blog. Acredita? Eu custei para acreditar! Ele me reconheceu quando fui prestar a prova de mestrado e, como ele viu que não passei, me mandou um e-mail me convidando para fazermos estudos como uma forma de preparação e incentivo para a prova do ano que vem. Marcamos uma reunião na UFSC dois dias depois. O que o professor tinha para me dizer corrobora com toda a visão e vivência de deficiência que tenho: de que somos pessoas antes de sermos deficientes. O convite foi melhor do que se eu tivesse passado no teste, pois não se tratava de uma avaliação de prova, mas um rekonhecimento do meu trabalho, de quem sou. Ouvir uma pessoa com esse gabarito dizer que gosta dos meus textos e da maneira como me posiciono foi um dos melhores presentes que a vida já me deu. Pode parecer trivial, mas só eu sei do trajeto até aqui. Meu pai, que me acompanhou no encontro com o professor Adriano, chorou copiosamente ao ouvi-lo dizer tudo aquilo. Quando eu sempre conquisto alguma koisa, papai diz: "Um pequeno passo pra Humanidade; um gigantesco passo pra você.". Simples assim! É outubro, o meu mês, me trazendo sempre boas notícias!

(re)Konhecimento aí vou eu!

Deixo aqui meu imenso agradecimento ao professor Adriano Henrique Nuernberg, que tem se mostrado um ser humano extraordinário, além de muito competente no que faz. Professor, não medirei esforços para corresponder a chance que você está me dando. Que possamos ampliar e defender os estudos da deficiência no Brasil. Muitíssimo obrigada!

Beijos a todos que sempre torcem por mim.