segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Karla-deficiente x Karla-psicóloga

Karo leitor, como você já deve saber, sou psicóloga. Durante os cinco anos de faculdade de Psicologia, conhecemos muitas teorias, estudamos abordagens diferentes, fazemos estágios e quase enlouquecemos com o tal Trabalho de Conclusão de Curso (vulgo TCC ou monografia). Lembro-me que há quase 2 anos dei uma entrevista a uma rádio e a jornalista me perguntou se eu tinha feito Psicologia para resolver coisas minhas (outra para a sessão “pérolas da minha vida”!). Minha vontade foi dar uma gargalhada, rolar no chão e dar três pulinhos, mas, como não sei pular e sou uma moça educada, apenas respondi que se você tem algum trauma ou algo muito sério para resolver, procure um psicólogo e não caía na besteira de ir para o curso de Psicologia para isso. Bom, dentre os preceitos fundamentais sobre a relação terapêutica entre o paciente e o psicólogo estão a transferência e a contratransferência. Se você não é da área dos filhotes de Freud, fique frio... explico simples e resumidamente: transferência é o conjunto de sentimentos positivos ou negativos que o paciente dirige, inconscientemente, ao terapeuta em decorrência de suas vivências anteriores. Por exemplo: às vezes, a pessoa projeta a figura do pai ou da mãe no(a) terapeuta e aí consegue trabalhar algum conteúdo (se o trabalho for bem feito). Já a contratransferência é a reação inconsciente do terapeuta à pessoa do paciente. O que tudo isso quer dizer, na prática? Quer dizer que a transferência se faz necessária ao trabalho terapêutico e o terapeuta deve saber trabalhá-la com o paciente; ao passo que a constratransferência exige um pouco mais de cuidado por se tratar dos conteúdos do próprio terapeuta. Aprendemos, então, sobre a importância da imagem do terapeuta e neutralidade das roupas, dos acessórios e as posturas éticas. E o que isso tem a ver com deficiência? Tudo!

No quarto e no quinto anos de faculdade, tive que fazer os estágios obrigatórios. Trata-se de um momento esperado e temido, mistura de ansiedade, receio e vontade de colocar todo seu conhecimento à prova - ainda que seja pouco. No estágio acontece um jogo amistoso entre dois times: você e seu medo. Para mim, o estágio era um compromisso de final de Copa do Mundo e ao pensar neles, senti-me obrigada a pensar em como a deficiência impactaria o paciente e como eu reagiria, caso isso "entrasse em campo". Embora tenhamos que "suspender" quem somos, olhar o paciente sob a lente profissional e fazer cara de paisagem mesmo que ouça o outro dizer que matou a vovózinha, minha pergunta era: devo "suspender" a deficiência? Como colocá-la em modo stand by? Era possível manter isso fora do processo terapêutico?

Penso que não. Na época acreditei (e acredito ainda hoje) que não poderia desfazer-me da deficiência como se usasse um decote indiscreto, um piercing no nariz, uma tatuagem gigantesca, um brinco extravagante ou uma maquiagem inspirada no Carnaval. Não há disfarces para uma perna renga, uma mão "malacabada" e um andar diferente, não é mesmo? E tudo bem que não haja! Assim que me formei e montei consultório, a questão era fazer a deficiência parte do meu trabalho. Jamais poderia (ou vou poder) tomar minha deficiência como foco, porque na posição de terapeuta, o que está em análise é sempre o conteúdo do outro, não o meu. O que devo perceber é que meus limites, aqueles da vida cotidiana, fazem a Karla-deficiente indissociável da Karla-psicóloga. Então, além de todo meu aparato técnico e intelectual disponível, eu mandei fazer móveis ergonomicamente testados por mim: mesa de altura satisfatória, gavetas fáceis de abrir e chavear, armário prático onde eu tivesse independência para pegar e guardar os materiais. Cuidei também para que a maçaneta da porta fosse fácil de manejar, que o tapete da sala fosse antiderrapante e que as poltronas fossem altinhas para que eu não precisasse fazer um passo de mestre-sala e porta-bandeira toda vez que tivesse que levantar. Garanti, assim, um ambiente acessível no setting terapêutico, para privilegiar o processo de escuta do outro e não o meu processo de enfrentamento de barreiras físicas. Tudo isso porque sei que as pessoas não procuram psicólogos para dizer que está tudo ótimo, procuram o cuidado. E será que uma pessoa deficiente que, teoricamente, inspira cuidados, pode cuidar do outro?

No último ano de faculdade, quando fiz o estágio em Psicologia Clínica, deparei-me com essa pergunta e, em seguida, com a resposta. Minha primeira paciente, que tinha dificuldades emocionais para sair de casa, um belo dia, sem que eu pudesse esperar, me disse: "Quando sinto medo de sair na porta, penso que você, com toda sua suposta dificuldade física, tá aqui estudando pra me ajudar e ajudar outras pessoas. Aí me animo a vir na terapia.". Acredito que tive a postura mais correta (e coerente) com a declaração da paciente: não me envaideci, tratei de trabalhar a correlação feita por ela entre uma dificuldade e a outra (a minha e a dela). Tempos depois, no início de 2010, quando fui contratada pela APAE, fui lidar de frente com essa questão. De repente eu era psicóloga numa instituição cujo objetivo era cuidar (inclusive) psicologicamente de seus alunos com deficiência e suas famílias. Tenho uma amiga que diz que não poderia exercer papel melhor: sou a mensagem subliminar ambulante de que é possível. Atender os pais dos alunos e ouvi-los dizer que passaram a ter mais esperança ao me verem trabalhando lá, não serviu para inflar meu ego porque não pretendo ser exemplo de nada e não podemos misturar as koisas, mas para reafirmar minha idéia de que ser psicóloga e deficiente pode servir como fato identificador do paciente e/ou ressignificador dos pré-conceitos que ele traz sobre o universo da deficiência e, de certa forma, ajudá-lo. Alguém tem alguma dúvida do quanto amo meu trabalho?

Beijo grande.

* Revisão e colaboração textual do professor Adriano Henrique Nuernberg.
** Para os cegos, a descrição: na foto da postagem há um sofá divã branco (móvel utilizado em consultórios de psicólogos). 

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Perguntas, frases e termos cretinos em relação à deficiência.

Ao longo dos meus 27 anos, acumulei (e vou continuar acumulando) "pérolas" que as pessoas dizem ou perguntam em relação à deficiência. Sempre levei com bom humor, tranquilidade e relevei as koisas mais absurdas/cômicas que ouvi. Nunca me senti agredida por acreditar que, em cem por cento dos casos, as pessoas disseram ou perguntaram por falta de conhecimento mesmo - não por maldade. O fato é que, como trabalho com a deficiência e essa também é a minha identidade, adotei uma postura mais política (ou seria politizada?) nos últimos tempos... o que, automaticamente, levou-me à irritação com o uso indiscriminado de termos inadequados ao mundo dos deficientes. Tenho absoluta certeza de que muitas (ou quase todas) pessoas com deficiência vão se identificar com o conteúdo desse texto, sejam elas surdas, cegas, cadeirantes, que nasceram já com a lataria amassada e/ou meio kapenga (tipo eu... ho ho ho). Talvez as pessoas sem deficiência também se identifiquem em algum momento por terem dito/perguntado alguma "pérola" dessas que vou citar e comentar abaixo.

Termos cretinos:
* Portador de deficiência. Recorri ao bom o velho dicionário para não ficar só na minha impressão (que estava correta). "Portar" significa carregar, conduzir ou trocar. Agora me diz, karo leitor, desde quando eu porto meu joelho remendado? Desde quando os cadeirantes podem simplesmente se desfazer da cadeira de rodas como se tirassem o sapato? É tudo uma koisa só, um estado de viver o mundo. Ou será que daqui a pouco teremos que tirar porte de deficiência?
* Portador de necessidades especiais. Gentem, quem não tem uma necessidade especial nessa vida? Eu tenho tantas! Tenho necessidade de água, chocolate, amendoins e livros. Para alguns, a necessidade especial é uma rampa, para outros é ter uma bolsa Victor Hugo, para outros é simplesmente ter o que comer. Termo muito relativo, não? 
* Especial/excepcional. Bom, vejo aí uma tentativa (ridícula) de supervalorizar a deficiência como forma de compensar "a desgraça do coitadinho do deficiente". Dispenso maiores explicações.

Então qual é a forma correta de se referir aos 'matrixianos'? Diga apenas "pessoa com deficiência" ou "deficiente" e esqueça todo o resto! Kombinado com Ká?

Frases e perguntas cretinas:
* Fulano tem problema (é deficiente). Quem tem problema é quem pensa isso. Aliás, o que é problema? E quem não tem problema? 
* Tadinho, ficou com problema (tornou-se deficiente). Ninguém é coitado, minha gente. Sem mais. 
* É mais fácil nascer com deficiência do que adquiri-la depois de certa idade. Sinceramente não acredito nisso. É muuuuito relativo. Ter perdido uma capacidade pode ser tão frustrante (ou não) quanto nunca tê-la tido. As dificuldades e as condições de enfrentamento à deficiência dependem de uma série de questões e variam de pessoa pra pessoa. Portanto, não sejamos generalistas!
* Com quantos caras "normais" você já se relacionou?. Isso eu ouvi de um cara (supostamente "normal") metido a intelectual (aham!), não faz muito tempo, com quem eu tive um affair (chique demais essa palavra... risos). O fato é que a pergunta dele me chamou a atenção por parecer que, como sou deficiente, só devo ter me relacionado com outros 'malacabados'. Que ingênuo! Logo virou desaffair... risos.
* Tal lugar é deficiente ou Polícia deficiente. Infelizmente, esse é um termo ainda bastante usado, inclusive na rede entre as próprias pessoas com deficiência na internet. Muitos se expressam desse modo para se referirem a um lugar precário ou um serviço que não funciona bem, o que acaba remetando à idéia de que ser deficiente significa ineficiência. Que mentira! O contrário de eficiente é ineficiente, certo? Então vamos parar de escrever "dEficiente" e querer riscar o "d" daquilo que somos.

Então como se irritar menos diante de tanta koisa absurda? Bem, apesar de não poder usar salto, eu não desço da sapatilha, retoco o batom e informo as pessoas. Na medida do possível, eu explico as koisas com muita educação, pois, fazendo a linha rebelde, só ganhamos a antipatia dos outros. Então todo cuidado é pouco para não criarmos o movimento inverso: com intenção de incluir e acabar segregando ainda mais. Acredito que informação é o grande remédio e a grande vacina contra todas as bobagens que ouvimos ou dizemos por aí. Bora lá disseminar as doses?

Beijos esperançosos.

- Na imagem do post, uma moça está sentada numa cadeira de rodas com os braços abertos de frente para o mar.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O korpo com Ká

Conta a Mitologia grega que Procusto era aquele que convidava os viajantes para repousar no leito de sua pousada na estrada que ligava Mégara a Atenas. Mostrava-se gentil e hospitaleiro, fazendo seu convidado deitar-se, mas exigia o completo ajuste do sujeito ao tamanho exato de sua cama de ferro. Se a pessoa fosse maior que a cama amputava-lhe as pernas, se fosse menor era esticada até atingir o tamanho desejado. Esse horror só teve fim quando o herói Teseu fez a ele o mesmo que ele sempre fazia às suas vítimas: colocou-o na cama, mas um pouco para o lado, sobrando assim a cabeça e os pés que foram amputados pelo herói.

Percebo no mito de Procusto que ele, assim como nossa sociedade, só pode conceber a gentileza e "hospedagem" se a pessoa estiver dentro do padrão desejado (do tamanho da cama). Ter em sua presença um corpo maior ou menor era um problema para Procusto, o que lhe levava à eliminação do desvio**. Em geral, as pessoas só são aceitas às custas de torturas impostas por um padrão estético exigente. Na minha interpretação, os corpos menores que a cama que Procusto não tolerava são aqueles ditos "normais", fora apenas do padrão por ter pouco seio ou um nariz avantajado, por exemplo. De certa maneira, esses corpos*** ainda cabem na cama e há uma tentativa de encaixá-los através das cirurgias plásticas, das horas a fio numa academia de ginástica, dos tratamentos estéticos que prometem milagres, etc. O corpo deficiente não, ele nem cabe na cama, é maior, não há outra saída senão cortá-lo e limitá-lo à impossibilidade do convívio. Obviamente estou sendo um tanto quanto generalista. Sei que essa prática (embora me pareça arcaica) ainda acontece e me causa muita estranheza. Aqui em casa me fiz gente acreditando que as pessoas estavam ocupadas demais para ficarem reparando nas minhas canelas finas ou nas minhas mãos assimétricas. Quando era criança, lembro de ter tido, umas duas ou três vezes, um ensaio de receio quanto a alguma roupa, ao que papai ou mamãe responderam: "E daí? A voltinha da orelha é o mais difícil de ser feito e isso saiu direitinho!"... risos.

Essa minimização do culto ao corpo feita pelos meus pais, introjetou em mim um conceito de que realmente ser diferente era normal. Não estou, de forma alguma, desdenhando a estética - até porque sou uma mulher muito vaidosa. Mas entendo que não podemos ser escravos da aparência e da conformação aos padrões. Por que temos que adorar tanto a forma se o que mais importa não é aparente? Esse pensamento me levou a tomar alguns sustos depois de estar "velhusca". Aos 19 anos, tirei uma foto da minha mão ao lado da mão do meu ex-noivo para registrarmos a ocasião do compromisso. Foi ali que percebi que minha mão era diferente. Na época eu nem imaginava em comentar ou escrever qualquer koisa em relação a isso. Foi uma constatação e só. Mês passado, fazendo uma brincadeira com minha prima no jardim na casa da minha avó, tirei as fotos que estão nesse post. Agora sim, a proporção das reflexões que surgiram a partir daí foi gigantesca, com a possibilidade deliciosa de compartilhar aqui com você, karo leitor. Tive as cirurgias fotografadas e os pés vistos de outro ângulo. Achei tudo muito feio e lindo. Feio obviamente porque eu estava me olhando de fora e tenho mesmo linhas fora do padrão; e lindo pela significação que o corpo tem pra mim. Se não fossem minhas cicatrizes, eu estaria de pé? Não. São os pés tortos que me levam para o mundo, certo? Então eu amo como sou simplesmente porque tudo isso é meu.

Passei, então, a me perguntar se as pessoas pensam que eu invejo um corpo não-deficiente. Não, eu nunca desejei ter um corpo "normal". A deficiência é meu modo de vivenciar o mundo, não um detalhe. A deficiência apenas é. Aliás, estou pensando em breve fazer uma postagem sobre "termos cretinos", dentre os quais estão aquelas frases que só revelam o mal-estar que as pessoas sentem a essa condição: "Fulano nasceu com problema (deficiente).", "Depois que fulano ficou com esse problema (tornou-se deficiente)...". O fato de eu ser deficiente talvez seja um problema para as outras pessoas, mas para mim não é. Foi a deficiência que me trouxe até aqui e me imaginar não-deficiente seria imaginar alguém que nunca existiu, simplesmente porque eu seria outra pessoa. Você aí, dito "normal", já imaginou como reagiria caso tivesse nascido com deficiência? São fantasias inúteis, tanto quanto aquelas que poderiam me privar de ir à praia, de usar roupa curta, de conhecer pessoas, etc. Incomodando-me ou não, sei que as pessoas vão olhar, então eu nunca tive outra escolha senão assumir aquilo que sou. Quantos mais eu mostrar as canelas finas, as articulações congeladas e os remendos dos joelhos, mais as pessoas estarão familiarizadas, menos "ibope" darei à Procusto.

Não, que nada! Eu não sou a versão feminina de Teseu, o herói desse mito. Minhas condições de enfrentamento à deficiência é que são. E não devo isso a um dom divino, não sou um ser melhor ou abençoado. Não sou heroína. Apenas tive pais sensatos que construíram comigo as forças de Teseu.   

Megabeijo.

* Supervisão textual do professor Adriano Henrique Nuernberg.
** Sobre o "corpo desviante", sugiro a leitura dos textos da Lígia Assumpção Amaral.
*** Sobre o "corpo canônico", sugiro a leitura dos textos da Malu Fontes.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Aos meus Carlos!

Karo leitor internauta, há algum tempo venho passando por uma série de reflexões e questionamentos sobre o corpo. Faz uns dias, comecei a escrever um texto em que eu pudesse discutir esse tema por aqui. Meu desejo principal é falar do significado do corpo com deficiência. Do meu corpo. O korpo com Ká. Entretanto, julguei que seria importante falar antes da minha deficiência, da lesão em si, para depois poder falar das atribuições, sentidos e significados que ela me trouxe. Ao terminar esse texto, percebi que estava longo demais e, por isso, resolvi separá-lo em dois textos (mesmo que as koisas todas não se separem). Percebo também que, sem querer, segui a ordem histórica dos movimentos da pessoa com deficiência: num primeiro momento falando sobre a lesão; num segundo momento falando sobre a vivência da deficiência, como ela me constitui(u) como pessoa. Por se tratar de um relato sobre minhas convalescenças (como diria Lígia Amaral), esse post serve também como brinde aos 10 anos que estou andando sem órteses.

Depois de um tempo após a criação desse espaço reparei que eu não havia explicado nada sobre a deficiência no perfil do blog. Não foi à toa. Para mim, é tão óbvio ser o que sou, que não me atentei a explicar isso a você, leitor. Muitas pessoas, então, passaram a perguntar por e-mail qual é o tipo de deficiência, se sou cadeirante, etc. Vamos lá falar do meu korpo, então. A Artrogripose Múltipla Congênita (carinhosamente apelidada por AMC), como o próprio nome sugere, refere-se a um congelamento das articulações (cotovelos, joelhos, ombros, tornozelos) que ocorre no desenvolvimento fetal, o qual implicou na minha mobilidade reduzida.  Está aí a resposta: eu não sou cadeirante. Tenho mobilidade reduzida. Flexiono pouco os braços e as pernas, não subo degraus altos (escadas), não tiro/coloco as meias sozinha, não prendo o cabelo (só penteio), não sei pular e correr, não tenho um excelente equilíbrio corporal... provavelmente esqueci de citar alguma dificuldade, mas até que eu me viro bem. Sim, eu ando, escrevo, digito, uso talheres, dirijo, passo o shampoo, maquio-me, troco de roupa, mexo as orelhas, estalo a clavícula esquerda e levanto uma só sobrancelha... risos.

Eu, 1986
Fico imaginando como foi difícil para os meus pais, receberem a notícia de que tinham ganhado um bebê com deficiência ainda no início dos anos 80. Por tudo que já conhecem na leitura de post anteriores, sabem que se saíram muito bem! Mamãe sempre conta que me "esconderam" por uns três dias depois do meu nascimento. No terceiro dia, sob ameaça de um escândalo dela, levaram-me até o quarto onde ela se recuperava do parto. Sem que ninguém soubesse, nesse meio tempo, papai já havia me registrado com o nome dele. Ele, Carlos; eu, Karla. Aliás, eu sempre deixei mamãe constrangida nos consultórios médicos porque, sempre que iam preencher minha ficha eu dizia: "É Karla com Ká!"... risos. Essa mania rendeu o nome do blog. Voltando ao meu nascimento, quando me trouxeram para casa, papai ouviu meus avós conversando baixinho dizendo que eu "não vingaria" (hoje sou eu que levo vovó no médico, na padaria, na manicure, etc.). Depois de um tempo, meus pais observaram que meu desenvolvimento cognitivo era normal. Eu comecei a falar por volta dos 8 meses e, com 1 aninho, já contava até 10 por conta dos exercícios físicos que mamãe fazia e contava repetidamente (minha simpatia por números parou por aí... risos). Com 4 ou 5 anos, mamãe me alfabetizou em casa. Lembro até hoje que escrevíamos e desenhávamos com uma canetinha marrom. Ela desenhava um barquinho e escrevia embaixo B-A-R-C-O. Quando cheguei à escola, já sabia ler e escrever. Eu segurava a caneta de um jeito diferente do qual seguro hoje... muitas koisas foram se adaptando com o passar do tempo. Foi nessa época (dos 4 anos) que fiz as primeiras 4 cirurgias nos joelhos (tenho no currículo 3 internações e 10 cirurgias). Dessa fase de hospital eu não recordo de nada. Aos 6, fiz 2 cirurgias nos pés. Aí lembro bem do dia em que telefonaram do Hospital Infantil de Florianópolis avisando que eu seria operada em agosto de 1991. Parece que estou vendo os bancos de espera do hospital, todos pintados num tom holandês ("laranja mecânica") e a ala infantil cheia de margaridas feitas de cartolina vermelha e verde coladas no teto - ainda tenho uma delas guardada como recordação da minha estadia por lá. Não esqueci dessas flores porque, no dia em que operei os pés, chorei a noite inteira olhando para elas. No dia seguinte, descobriram que haviam deixado um dedinho do meu pé dobrado dentro do gesso. Para me agradar, no dia em que recebi alta, um dos residentes fez um balão com uma luva cirúrgica e eu fiquei chateada porque estourou antes de eu chegar em casa. Aqui fica um suspiro, pois eu gostaria de lembrar do nome de todos os profissionais que cuidaram de mim, tanto no hospital, quanto no Centro de Reabilitação que frequentei desde que nasci até uns 7 ou 8 anos de idade, mas não consigo lembrar de nenhum. Após essa fase, eu passei a fazer fisioterapia com o Isamir, aqui em Garopaba mesmo. Atualmente ele é meu colega de trabalho na APAE.

Hospital Infantil Joana de Gusmão
Lembro que era uma rua sem saída, uma ladeira, com uns 300m. No alto da rua está, até hoje, o Hospital Infantil e, logo mais abaixo, o Centro de Reabilitação. Na calçada, em frente ao prédio branco do Centro havia um trailler em formato de lanchonete (palavrinha mais antiga, hein?), cujo dono era conhecido por todos como Carlão. Um homem muito alto, barbudo, alegre e com uma pança levemente avantajada. Lembro que meus pais ficaram amigos dele pela frequência com que parávamos lá. Uns 15 anos depois que deixei de ir à Reabilitação, eu já morava em São Paulo e numa das minhas férias por aqui, decidi que precisava visitar o Carlão. Quando cheguei àquela rua, revisitei a minha história. Vi o Carlão com o cabelo e a barba brancos, a pança um pouco maior, o sorriso de sempre um pouco mais alegre naquela hora por ter me visto andando. Só pude chorar. Como agora, como todas as vezes que puxo esse arquivo da memória. [Pausa] Alguns meses depois que o visitei, Carlão faleceu.

O mais interessante é que, embora possa parecer sofrido para uma criança ter internações, cirurgias e passar mais tempo em fisioterapia do que brincando, correndo, andando de bicicleta, eu me lembro disso tudo com muita alegria. Porque eu estive inteira em todas essas lembranças. Eu brinquei de verdade quando pude e do jeito que pude. A minha infância não foi roubada pela deficiência. Fui criança feliz com deficiência. Até os 12 anos (mesmo com todas as intervenções médicas do Dr. Carlos), eu só andei com órtese (iguais as do Forest Gump). Era um sufoco. Colocava os aparelhos de manhã antes de ir pra escola. Tinha que usar meia de lã direto, pois as órteses de ferro machucavam e até, essa idade, eu só usei bota ortopédica (em seguida fui apresentada aos tênis). Quando chegava a noite, eu tirava os aparelhos para tomar banho e, sem eles, não andava mais. Foi aí que mamãe deu um basta. Tirou, por conta própria, a obrigação de usar as órteses. Passei a fazer execício com ela pela casa. Eu andava mal e pouco. Dava uns cinco passos e já estava com a língua arrastando no chão. Aos 16, conheci um médico de Porto Alegre (outro Dr. Carlos) que me operou e me colocou de pé. Inovou, prometeu e cumpriu. Mesmo contrariando meu médico catarinense (que disse que eu não andaria se fizesse essa cirurgia), eu topei operar em Porto Alegre. Papai deixou essa decisão por minha conta - como todas as outras. Não sei se foi porque não lembro das outras recuperações ou se porque não foram tão sofridas, mas a recuperação dessa última ida ao hospital foi a fase mais difícil que enfrentei. Além das dores e do incômodo de usar gesso por 106 dias, eu vivi esse tempo divida entre a possibilidade de andar e o desdenho do ortopedista que cuidou de mim desde que nasci. Valeu a pena! Valeu muito a pena! Quando tirei os gessos, eu estava andando. Obviamente, levou um tempo para que eu pudesse aprimorar o caminhar - como na vida, a gente aprimora sempre que permite. Continuo aprimorando.

Se, como diz Gonzaguinha, somos em corpo e alma o produto das lições diárias de outras tantas pessoas, em parte, sou o que se fez das mãos de afeto de meu pai Carlos, da precisão cirúrgica dos Drs. Carlos e das mãos confeiteiras de Carlão. Meu caros... meus Carlos. Dentre as pessoas que não estavam diretamente presentes nas minhas rotinas de internação, Carlão, foi o único nome que nunca esqueci. Carlão alimentava, não só meu corpo com suas coxinhas maravilhosas e aquele suco mais doce que rapadura, mas nossas almas com muita atenção e zelo. Em nome dele agradeço a todos os profissionais que cuidaram de mim, inclusive aos Doutores Carlos. Ao papai, o Carlos mais importante, o agradecimento eterno por ter me dado a vida e o nome: Karla com Ká.

Tim-tim!

Feliz 2012, karo leitor internauta!
Beijo grande.

* Supervisão e colaboração textual do professor Adriano Henrique Nuernberg.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Prece pra Iemanjá

Que Papai Noel, que nada! Na atual circunstância, me resta acreditar em Iemanjá!
Eu, como adoradora dos ares, dos aviões e dos paraquedas, venho publicamente, na maior cara-de-pau, pedir que a Rainha do Mar faça um milagre dos bons. Pois é, querida Iemanjá, infelizmente não nasci para o mar, então meu estômago não me ajudou a descobrir o nome e a origem do rapaz que só vi no embarque e no último dia de passeio no cruzeiro. Ou seja, não poderei dar as coordenadas - eu avisei que se tratava de um milagre. Peço, então, com todo karinho, para que seu radar seja infinitamente melhor do que o meu e dê um "jeitinho brasileiro" para que aquele moço bonito, alto, com pele de pêssego e com o sorriso mais branco que o casco no navio, entre nesse humilde blog e faça um kontato com Ká. Pense bem, Iemanjá... logo eu, que raramente me interesso, que venho atravessando meses de muita exigência e restrição ao sexo oposto, fui logo me encantar à primeira vista - isso pode, sem dúvida, ser considerado também um milagre... risos. Caso meu pedido seja atendido, depositarei flores na praia mais próxima!  

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

(re)Konhecimento aí vou eu!

Recontar a própria história, revisitar o passado, narrar os elementos fundamentais da vida profissional e acadêmica que esse texto exige é uma tarefa árdua. Entretanto, me fascina poder dar forma em palavras os momentos que construíram minha carreira como psicóloga, até então. Confesso que, o próprio exercício de relembrar e escrever, é por si só uma fantástica possibilidade de ressignificação do vivido, cujo objetivo demarca minha postura diante do mundo enquanto sujeito e, consequentemente, enquanto psicóloga. Embora não possua uma vasta experiência profissional, rekonheço que me encontro sob novas configurações cotidianamente, justamente por acreditar que estou na condição de ser humano e, portanto, “sujeita” a todas as conjecturas que me cercam.

Órtese
Lembro do meu primeiro dia de aula na pré-escola. Eu usava um aparelho ortopédico de ferro nas pernas e botas ortopédicas, como na foto - aliás, eu só calcei sapatos comuns aos 12 anos quando, por conta própria, minha mãe resolveu tirar os aparelhos e passei a aprender a andar sem eles até as cirurgias, aos 16 (em breve farei uma postagem sobre isso). Vestia, naquela ocasião da escola, a camiseta branca de manga curta e a bermudinha azul, uniforme tradcional dos colégios estaduais na minha época. Tenho certeza de que minha mãe expôs minha deficiência de propósito. Na verdade era um hábito; ela jamais deixou de me levar em algum lugar ou de vestir roupa curta em mim por isso. Então meus colegas da escola ficaram curiosíssimos. Eles queriam chegar perto, tocar, conversar e eu achei, no mínimo, engraçado. Lá pelas tantas, uma das crianças perguntou se eu estava "daquele jeito" por ter sofrido acidente de carro. Cheguei em casa rindo muito e contando o episódio aos meus pais. Fiquei pensando de onde o colega tinha tirado aquilo. A leveza com que eu e meus pais encaramos essa situação determinou o meu enfrentamento diante de todas as outras situações parecidas com essa. Uma vez, saí com meu pai e uma senhorinha se aproximou e perguntou a ele: "Ela fala?", sem pestanejar eu respondi: "Acho que sim!". Meu pai não sabia como sair daquela saia justíssima, colocada à vácuo, mas depois a gente riu demais. Eu já disse isso aqui, mas vou repetir: não tinha motivo para me incomodar com aquela pergunta, assim como não tenho problema para responder pergunta nenhuma a respeito da deficiência até hoje (nem nunca vou ter), porque é normal que as pessoas queiram saber e quanto mais respondermos e explicarmos, menos daremos chance ao preconceito, aos mitos, à ignorância.


Faculdade rima com saudade!

Bom, durante toda a minha vida escolar e universitária as koisas funcionaram nessa linha: estive rodeada de muitos amigos, as pessoas sempre se prontificaram a me ajudar e jamais deixei de me sentir pertencente ao grupo. Tenho plena convicção de que esse processo aconteceu por uma via de mão dupla, uma troca: a minha postura influenciou a postura das pessoas comigo e vice-versa. Logo, ir para a escola foi sempre uma alegria, um momento bom. Foi nos espaços da escola pública que eu percebi a minha paixão pelas pessoas. Não nasci para a exatidão, para os números ou tabelas periódicas... o que eu amo é a complexidade da humanização. Ir à escola me rendeu apenas boas emoções, o que fez com que estudar se tornasse uma das koisas que mais gosto de fazer. Portanto, me fascina a idéia de poder seguir a carreira acadêmica, a apreensão do conhecimento e a possibilidade de disseminá-lo. 

Em 2008, terminei a faculdade em Santos/SP e o objetivo era fazer pós-graduação. Logo em seguida eu resolvi voltar para Santa Catarina. De lá pra cá, eu tenho trabalhado bastante (cada vez mais, felizmente). Hoje trabalho na APAE e todo dia é uma reafirmação de que faço o que amo. No ano passado, surgiu a idéia de fazer o Mestrado na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), mas tudo ficou apenas no plano das idéias, pois o dia da prova coincidiu com a data de um curso sobre Autismo que eu já havia pago para ir fazer em São Paulo. Não era hora do mestrado - foi nesse curso em Sampa que eu conheci minha amiga querida Gisele Nunes. Alguns meses depois, houve a oportunidade de fazer especialização em Educação Especial aqui em Garopaba. Na hora topei! Era a chance que eu precisava para continuar estudando com a temática coerente com o meus anseios e com o meu trabalho. Atualmente, só me resta terminar a monografia para pegar o "canudo" e ganhar o título de especialista em Educação Especial.

Durante todo esse ano, mesmo fazendo a pós, tive a vontade fixa em passar no Mestrado da UFSC. Com bastante antecedência, li todo o edital do ano passado para me inteirar de como funcionava o processo. Preparei os documentos, fiz a prova de proficiência em língua estrangeira (inglês), organizei meu currículo lattes e pensei no pré-projeto (esse último não fiz, achei melhor esperar para ver se passaria na prova específica). Dia 7 de outubro, logo depois do meu aniversário, fui até à Universidade fazer a prova específica na área 2, cuja linha de estudo são as "Práticas Sociais e Constituição do Sujeito", que é exatamente o que quero estudar tendo como objeto de estudo a deficiência. No ato da incrição para o Mestrado, você já deve indicar um orientador para o seu projeto, caso chegue nessa etapa. Dei uma olhada no currículo dos professores e achei que o perfil do Prof. Dr. Adriano Henrique Nuernberg era o que tinha mais a ver comigo por ele ser um pesquisador desse tema. Eu não sabia, mas o professor Adriano foi quem aplicou a prova naquele dia. Saí da prova absolutamente certa de que não passaria. Algumas pessoas julgam isso como "estratégia para evitar a ansiedade", mas para mim é puro realismo. Eu sou sincera comigo mesma, não haveria motivos para depositar expectativas em algo que eu estava ciente de que não aconteceria. Aliás, caro leitor internauta, você evita uma pá de sofrimento desnecessário quando aprende a analisar até onde vão suas capacidades. E ali, eu sabia que não havia tido subsídio teórico suficiente para ser mestranda da UFSC - por enquanto.

Professor Adriano Nuernberg e eu.
Dia 24 de outubro saiu o resultado, aquele que eu já esperava: não havia passado. Apesar de desejar muito estar naquela lista, não me frustrei, sinceramente. Acredito que as koisas têm uma hora certa para acontecer e um sentido todo particular que cada um dá. E aquela desaprovação significava, para mim, que algo melhor viria. E veio. No dia seguinte, pela manhã, abri minha caixa de e-mail e lá estava uma mensagem do professor Adriano. Isso mesmo, aquele que eu havia escolhido como possível orientador, que aplicou a prova e que eu não fazia idéia do motivo daquela mensagem... risos. Para minha surpresa, o professor Adriano já me conhecia. De onde? Daqui, do blog. Acredita? Eu custei para acreditar! Ele me reconheceu quando fui prestar a prova de mestrado e, como ele viu que não passei, me mandou um e-mail me convidando para fazermos estudos como uma forma de preparação e incentivo para a prova do ano que vem. Marcamos uma reunião na UFSC dois dias depois. O que o professor tinha para me dizer corrobora com toda a visão e vivência de deficiência que tenho: de que somos pessoas antes de sermos deficientes. O convite foi melhor do que se eu tivesse passado no teste, pois não se tratava de uma avaliação de prova, mas um rekonhecimento do meu trabalho, de quem sou. Ouvir uma pessoa com esse gabarito dizer que gosta dos meus textos e da maneira como me posiciono foi um dos melhores presentes que a vida já me deu. Pode parecer trivial, mas só eu sei do trajeto até aqui. Meu pai, que me acompanhou no encontro com o professor Adriano, chorou copiosamente ao ouvi-lo dizer tudo aquilo. Quando eu sempre conquisto alguma koisa, papai diz: "Um pequeno passo pra Humanidade; um gigantesco passo pra você.". Simples assim! É outubro, o meu mês, me trazendo sempre boas notícias!

(re)Konhecimento aí vou eu!

Deixo aqui meu imenso agradecimento ao professor Adriano Henrique Nuernberg, que tem se mostrado um ser humano extraordinário, além de muito competente no que faz. Professor, não medirei esforços para corresponder a chance que você está me dando. Que possamos ampliar e defender os estudos da deficiência no Brasil. Muitíssimo obrigada!

Beijos a todos que sempre torcem por mim.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Makiagem com Ká?

Olá, caro leitor internauta!

Hoje vim falar sobre minha paixão por maquiagem. Desde muito cedo sou apreciadora dos cosméticos feitos para embelezar ainda mais, nós, mulheres. Costumo estar maquiada na maior parte do tempo, cada estilo condizente à ocasião, óbvio. Se vou para uma festa gosto de arrojar sem parecer muito "carregado", se vou sair pra jantar uso algo mais "leve", se vou para o trabalho uso algo mais discreto - afinal, não posso estar mais chamativa do que minha competência exige, ou seja, o paciente tem que prestar atenção no que vou dizer (ou no que ele mesmo vai dizer), e não no meu batom, no meu brinco, na minha roupa, etc. E, se vou ao supermercado, pelo menos um rímel e um blushzinho tem que ter, não é mesmo? De uns tempos pra cá, tenho investido mais nos produtos de maquiagem. Sempre que posso compro algum item novo ou reponho um que acabou. Ô vício!

Gabriela, minha modelo, já pronta.

O mais engraçado é ver como pessoas custam a acreditar que sou eu que faço minhas  maquiagens.  Aliás, quase todo final de semana eu faço maquiagem nas minhas primas adolescentes para as festas de 15 anos... E olhe, tem gente pra caramba fazendo 15 anos... tô ficando véia!... risos. Posteriormente à "descrença" do primeiro momento, as pessoas também sempre me perguntam se fiz algum curso e não, não fiz curso nenhum, caro leitor internauta. No máximo, o meu gosto por maquiagem me leva para blogs a respeito desse assunto - inclusive aprendi bastante com minha amiga e xará Karla Oliveira que faz maquiagem profissionalmente. Outra koisa que causa estranhamento, desconfiança nas pessoas é o fato de eu mesma fazer minhas sobrancelhas - diga-se de passagem, não só as minhas, mas também faço as da minha mãe, as das minhas amigas, das colegas de trabalho, etc... risos.

Acredito que tamanha surpresa se dê pelo formato assimétrico e incomum das minhas mãos. Eu não me incomodo com isso, de verdade. Quando vemos uma pessoa, não sabemos dizer, ao certo, do que ela é capaz apenas baseados na aparência. Isso também acontece com os "matrixianos", e pior: as pessoas tendem a subestimar as capacidades até perceber que podemos. Constato tudo isso com muita tranquilidade porque acho que é um processo comum e natural - não é "privilégio" só dos deficientes. Tendemos a ter receio do desconhecido, daquilo que não nos parece familiar. Portanto, a estranheza não me aflige. Tento me colocar fora desse corpo e acho que também duvidaria ou teria muita curiosidade, num primeiro momento. Para citar um exemplo, outro dia vi na TV uma moça americana sem os dois braços que dizia pilotar um avião de pequeno porte com os pés. Confesso que, de início, eu duvidei, mas depois ela decolou levando a Adriane Galisteu para dar uma "voltinha". Aí concluí que, além de deficiente e psicóloga, tínhamos em comum a mesma paixão por voar... risos. Achei sensacional! Eu também precisei ver para crer. E foi diante de tudo isso que resolvi fazer um vídeo (clique aqui para assistir) mostrando que somos todos capazes. O primeiro passo é querer. Se você realmente quer (qualquer koisa), metade do trajeto até seu objetivo já foi alcançado. Quando me interessei por maquiagem, eu quis MESMO e deixei que esse "gostar" me levasse para o "saber fazer". Portanto, mulherada, mãos à obra, digo, aos pincéis. Espero que gostem do vídeo. Agradeço à Gabriela Defreyn, minha prima, que serviu como modelo e que editou o vídeo. A trilha sonora é "Moves like Jagger" do Maroon 5 e segue abaixo a lista de produtos usados nessa maquiagem:

Pele:
Corretivo Maybelline 20 light.
Base Maybelline Dream Liquid - beige natural 2.5
Pó Maybelline Mineral Power - medium beige 2.0
Blush Natura - rosa

Olhos:
Conjunto de sombras Revlon Color Play - cores 2, 3 e 4
Sombra Color Design - cor guest
Lápis Natura - preto
Lápis L´Oreal Double Extend - branco
Rímel Maybelline The Colossal Volum' Express

Boca:
Batom Natura - Rosa ritmo

Beijo, beijo, beijo com gloss.

domingo, 30 de outubro de 2011

II Fórum de Acessibilidade de Garopaba

Boa noite, caro leitor internauta!

Saudades de escrever aqui. Outubro, meu mês, se encerrando e deixando ótimas lembranças e notícias. Contarei aos poucos. Vamos lá!

Acredito que já comentei por aqui que sou presidente da Comissão de Acessibilidade de Garopaba desde o ano passado, certo? Em outubro de 2010, fui convidada pela Secretaria de Turismo a participar do I Fórum de Acessibilidade através de uma palestra contando um pouco da minha história, dos desafios que encontro cotidianamente (principalmente nas viagens) e sobre o blog. De lá pra cá passei a dedicar mais tempo e a criar mais espaços para esse tema - tanto aqui, como no Facebook. Outro evento importante dessa comissão, nesse ano, foi o "I Workshop de Acessibilidade: Inclusão no Mercado de Trabalho", que eu e a Andréia Valdira de Abreu (minha amiga, prima e psicóloga) oferecemos aos empresários da cidade, em maio. Nessa ocasião, fechamos parceria com o Wilson Restaurante e a Jr. Adamver (que fabrica os óculos da Mormaii) - ambos ofereceram uma vaga para pessoas com deficiência. No momento, estou acompanhando a contratação de um moço com surdez na fábrica da Mormaii.

Pois bem, na última segunda-feira, dia 24, realizamos o II Fórum de Acessibilidade. Em 2011, fiquei responsável pela organização do evento. Fiz inúmeras reuniões, discutimos a programação, convidei os palestrantes, encaminhei todo o material de divulgação para a gráfica, entreguei os convites... ufa, deu trabalho! Mas o resultado foi positivo. Saiu tudo conforme o esperado, exceto pela pouca participação da comunidade. Eu sei, caro leitor internauta, sei que é bem mais fácil e cômodo ficar por aí reclamando de tudo e atribuindo as responsabilidades ao Estado, mas eu não admito ficar nessa posição de estagnação. Somos todos agentes e transformadores do nosso meio... basta querermos. Costumo pensar que o que importa é sensibilizar, tocar de verdade quem presenciou. O que me interessa é poder transformar qualquer koisa em quem participa de eventos como esse, para depois transformarmos as calçadas, os banheiros, os meios de comunicação, as práticas, etc. Portanto, na minha visão, a acessibilidade é um movimento de dentro para fora.

Começamos os trabalhos com a palestra sobre a "Inclusão no Mercado de Trabalho", exposta pela Andréia, que "enxugou" todo o nosso material do workshop. Posteriormente, tivemos a videoconferência com o meu amigo querido de Belo Horizonte, Alessandro Fernandes (o Sam) do Blog do Cadeirante, falando sobre a "A Pessoa com Deficiência e a Mobilidade Urbana". Depois, a Rosi Lima, psicopedagoga e responsável pela Educação Especial no município, discorreu sobre os desafios da "Inclusão Escolar". Aliás, aqui faço uma observação: o ensino regular municipal conta com 28 alunos incluídos e, desses, 22 são alunos da APAE, cujos professores contam com nossa assessoria semanalmente. Muita gente nem sabe, mas vem sendo desenvolvido um trabalho efetivo nessa área aqui em Garopaba. E, por fim, o engenheiro civil da prefeitura, João Manoel, apresentou dois esboços de projetos: Calçada Para Todos, com a padronização das calçadas da cidade, em formato de cartilha; e Esquina Referência, objetivando tornar acessível a esquina de maior fluxo na avenida principal de Garopaba. 

Durante a exposição dos temas, surgiram diversas sugestões, as quais me comprometi a redigir em formato de carta ao Sr. Prefeito. Agradeço imensamente às pessoas presentes, aos palestrantes, à Secretaria de Educação, de Turismo e de Planejamento, à gráfica ImagemDaqui, à imprensa via rádio, às pessoas que me ajudaram mais diretamente: Edenisi Maria e Gabriela Defreyn e a todos que, de alguma forma, lutam pelos direitos da pessoa com deficiência. Meu trabalho é voluntário, mas, sem dúvida, eu recebo muito mais do que dôo.

Superbeijo.

sábado, 1 de outubro de 2011

Sapatos: a saga.

Bom dia, caro leitor internauta!

Hoje vim falar de uma necessidade que tira meu sono: comprar sapato. Provavelmente é um problema pra maioria dos 'matriaxianos', em especial, pras mulheres que possuem alguma deficiência física e que dependem a anatomia confortável de um calçado. Acredito que as mulheres cadeirantes não sofram tanto com isso, pois o sapato serve mais de acessório decorativo do que um utilitário. Que beleza! Por muitos anos, só usei botas ortopédicas por conta das órteses que me possibilitaram andar até a adolescência. Depois dos 16 (que fiz as últimas 4 cirurgias), pude caminhar normalmente e com sapato comum. Não faz muito tempo, eu consegui usar uma sapatilha, além do tradicional tênis e das botas (sem salto). A grande questão é conseguir achar uma sapatilha que não "vire" o pé, que seja do meu tamanho (33/34) e que não tenha a cara da Hello Kitty.

Das vezes que encontrei esse calçado, foi da linha Dakota Confort, com elástico. Custou R$39,90, no ano passado. A sola é fantástica, não escorrega e firma bem o pé. O problema é encontrá-la. Raramente as lojas por aqui recebem esse modelo e, quando recebem, é em pouca quantidade (ou nunca tem no meu número). Nas andanças por um calçado com elástico e com design para adulto, me deparei noutro dia com a loja do Empório Naka, no piso 3 do Shopping Iguatemi, em Florianópolis. É uma marca própria e, segundo a moça que me atendeu na loja, toda coleção traz um modelo anatômico, com elástico, tipo "confort". Que boa notícia!! Foi lá que comprei a sapatilha da foto e prometi pras meninas de lá que postaria aqui. Custou R$ 129,90. Fazendo uma pesquisa na internet, constatei que essa marca realmente sempre disponibiliza sapatinhos desse tipo. Que bom seria se mais empresas pensassem nos pés que não pode usar qualquer calçado. Konforto também pode ser com Ká! #ficaadica

Emporio Naka
http://www.emporionaka.com.br 

Superbeijo.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Amigo virtual ou real? Amigo!

Eu e Sam. 13 de julho de 2011.
Uma das melhores koisas que esse blog me trouxe foi a possibilidade de conhecer pessoas. Ano passado, eu encontrei na internet o Blog do Cadeirante, um espaço dedicado a contar as experiências do mineiro Alessandro Fernandes, o famoso Sam. Lembro-me que lia os textos dele com muito entusiasmo porque, além de informativo, completo, o Sam escreve com bastante fluidez e bom humor. Sabe aquela escrita que te envolve e, de repente, você acha que já conhece aquela pessoa há muito tempo? Pois é, era assim que eu sentia e, mesmo eu não tendo paraplegia ou não sendo cadeirante como o Sam (sou só uma kapenga andante), eu passei a me identificar muito e a comentar as postagens dele. O blog é referência para deficientes do país inteiro, inclusive, o Sam já deu entrevista na televisão e em revistas. Depois de um tempo, passamos a trocar e-mails como dois amigos mesmo e, até meu irmão de 11 anos passou a acompanhar o blog, fazia as contas pra ver quantas visitas o blog recebia em tantos dias... hahahah... Também não vou esquecer do dia em que fui dar entrevista numa rádio e ele mandou um recado para a produção, pois estava me ouvindo pela internet. Muito legal!

Em julho, fui surpreendida com um recado do Sam dizendo que viria a Florianópolis a trabalho. Marcamos de sairmos para jantar e lá começou minha saga em achar um bar/restaurante com plena acessibilidade, pois seria extremamente incoerente e constrangedor levá-lo num lugar qualquer e termos nos deparado com degraus, banheiro inacessível, etc. Então eu procurei na internet uma lista de bares e restaurantes de Floripa e liguei para, praticamente, todos os bares... pode acreditar! O mais engraçado é que, ou a pessoa dizia que não tinha acessibilidade ou dizia que tinha, mas questionando vinha sempre uma resposta tipo: "Rampas temos, banheiro não.". Acessibilidade 'meia-boca' não é acessibilidade, minha gente. O cara não pode 'quase entar' no bar ou 'quase ir ao banheiro', né não? Bom, quase desistindo e me conformando com a idéia de ir ao McDonald´s com o Sam, eu achei o tal Benvenuto Bar, um lugar bacanérrimo. O bar dispunha de calçada com guia rebaixada, piso tátil, rampa na entrada e banheiro acessível... que sonho! Ah, e a comida era muito boa também. 

Mas antes de chegarmos no bar, aconteceu uma koisa tri legal. Vou explicar: o Sam é mineiro, mas fazia Mestrado em Floripa, na Universidade Federal de Santa Catarina. Numa das suas férias, ele foi pra Minas e acabou sofrendo o acidente de moto que o deixou paraplégico. Então, desde 2006, o Sam não voltava a Floripa. Andando pela cidade, foi tocante vê-lo reviver a cidade. O meu primo Rafael,  que estava dirigindo, o levou dentro do campus da universidade e sentimos uma forte emoção ao testemunhar o Sam revisitando aquele lugar, os espaços por onde costumava passar, mas dessa vez sob outro olhar: o olhar de uma pessoa que adquiriu uma limitação física, mas que não deixou de viver bem. Tô errada, Sam? Então quando lembrava de onde andava de bike, ele dizia: "Olha, aqui tem rampa, piso tátil...". Para mim, o passeio foi agradabilíssimo e conhecer esse amigo foi a constatação de que tudo tem um propósito, de que a amizade e o carinho pelas pessoas independem da latitude e da longitude das nossas casas. Admiro e quero muito bem essa pessoa fantástica que é o Sam, meu ícone, exemplo de superação. Espero que em breve eu possa visitá-lo em Belo Horizonte e que ele traga logo a Gi (a esposa) pra eu conhecer, como combinamos. Adorei ter te conhecido, my friend! E obrigada pela visita!!

Benvenuto Bar
Av. Madre Benvenuta, 1248 - Santa Mônica - Florianópolis/SC
Telefone: 48 3236-0633
Site: http://www.benvenutobar.com.br/

Superbeijo.

domingo, 11 de setembro de 2011

Hotel Ibis (Congonhas) - São Paulo/SP


Vista do Hotel Ibis na passarela do Aeroporto de Congonhas
Bom, caro leitor internauta, hoje vim dar mais uma dica de acessibilidade: Hotel Ibis (Congonhas), em São Paulo. Na primeira vez que me hospedei no Ibis (em abril desse ano), não fiquei num quarto adaptado. Apesar de o hotel dispor de 4 quartos acessíveis, na época estava acontecendo a feira Reatech, então deduzi que todos estariam ocupados e, além disso, a acessibilidade em banheiros para mim é dispensável - ou seja, com certeza haveria quem precisasse mais que eu. Dito e feito. Já nas férias de julho, eu pedi um quarto adaptado para matar a curiosidade e postar aqui para você. Contei com a companhia e dotes fotográficos da minha amiga linda (e paulista) Gisele Nunes. 

Como você pode ver nas fotos, há barras próximo ao vaso sanitário e na pia. No quarto comum, a pia é uma bancada de mármore, bem diferente dessa. O espelho é inclinado para que um cadeirante possa espelhar-se. O chuveiro também é adaptado e há duas opções: ou você usa um banco que é chumbado na parede (e que se abre) ou você usa uma cadeira de banho que fica disponível no quarto. Não há box ou degrau próximo ao chuveiro, apenas uma leve inclinação para que não haja o acúmulo de água. O piso do banheiro é antiderrapante em ambos os quartos (adaptado ou não). 

E eu, curiosa que sou, resolvi tomar banho na tal cadeira de banho que nada mais é do que uma cadeira de rodinhas (mesmo!) com uma tampa de vaso. Aqui faço uma pergunta, como a pessoa toma banho se estiver sozinha? A rodinha da cadeira de banho é muito pequena, não dá pra manejá-la. Que tal amarrar um lençol e assoprar até chegar no banheiro? Seria um tipo de "cadeira de banho à vela". Gente, fiquei com muito medo de tomar banho naquela geringonça e ainda tive que contar com a gentileza da Gisele. Aliás, quem é cadeirante, por favor, tiraa essa dúvida minha: a cadeira é realmente muito insegura ou eu é que não estou acostumada mesmo? No fim do banho, valeu a pena a experiência e as risadas que eu e a Gi demos tentando usar a acessibilidade adequadamente.

A circulação no quarto é bem confortável, inclusive para um cadeirante... uma grande escrivaninha fica próxima à janela, o frigobar fica numa altura razoável e a televisão também. Não há tapetes, o que facilita se a pessoa estiver com a cadeira. Quanto ao hotel e ao quarto adaptado, tenho apenas duas observações: 1. todos os quartos adaptados são no final do corredor e isso é muito, mas muito longe do elevador. Em caso de emergência, já era pros 'matrixianos' e 2. tem um carpete bem grosso que reveste os corredores, o que atrapalha a locomoção de um cadeirante. No resto, o Hotel Ibis é uma ótima opção. Não há degraus no hotel, os serviços são ótimos e a comida é maravilhosa. Além disso, essa unidade fica ali do ladinho do aeroporto de Congonhas, há 100 metros. Ah, e o melhor: o preço também é acessível. Caso queira ganhar um descontão, é só fazer a reserva no site com, no mínimo, 20 dias de antecedência.

Hotel Ibis (Congonhas)
R. Baronesa de Bela Vista, 801 - Vila Congonhas
CEP: 04612-002 São Paulo/SP
Site: http://www.accorhotels.com/pt/hotel-3718-ibis-sao-paulo-congonhas/index.shtml

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Eu sonho alto, literalmente!

- Mãe, o que você acha de eu saltar de paraquedas?
- Uma loucura!
- Mas mãe, olha só: o Fabinho Fernandes lá do Rio de Janeiro é tetraplégico e saltou so-zi-nho!
- Mas o Fabinho é doido!
Olhei pra minha mãe com cara de "você não vai me convencer" e ela entendeu o recado. Me falou
- Se você for saltar, não me conte nada antes. Não me fala como, onde, quando e com quem vai. Oh, yeah... como sou boa filha, resolvi acatar o pedido da minha mãe. Na verdade, aquilo era um aviso meu, pois há tempos sou eu que decido o que fazer da minha vida. Além do mais, vou até o fim quando quero alguma koisa e mamãe sabe disso. Pensando bem, foi ela e papai que me ensinaram a ser assim: "se você quer, você consegue. Só depende de ti". É piegas, mas faz todo sentido. Afinal, a vida é uma pieguice danada, mas é maravilhosa! Pois bem, planejei tudo com uns 40 dias de antecedência. Resolvi que tudo aconteceria durante minha semana de férias de julho. Como sempre vou pra Santos/SP, decidi que faria mesmo no lugar onde sempre sonhei: em Boituva, interior de SP. Lá está o maior centro de paraquedismo da América Latina e se eu fosse morrer, que fosse em grande estilo, então. Brincadeiraaa! Hahahaha... Reservei hotel, agendei o salto, combinei com meus amigos, comprei as passagens e fui. Desci em São Paulo no sábado, dia 23 de julho, passei a noite num hotel com a companhia da minha amiga linda Gisele. Mal dormi, eu estava ansiosa e com dor na consciência de estar escondendo dos meus pais tais planos, mas deu tudo certo... depois meus pais entenderam que foi por uma boa causa. Logo amanheceu e meu amigo Mauricio foi me buscar, no meio do caminho pegamos a Vivian Carla (também minha amiga que saltaria) e partirmos rumo à Boituva. 

Vi a porta daquele pequeno avião abrir e uma corrente de ar muito forte bateu no meu rosto. À minha frente só o horizonte. Acima o céu azul e um sol radiante. O dia estava lindo, parece que tinha amanhecido daquele jeito pra mim. Quatro mil metros abaixo, vi o chão como uma grande pintura verde. Um calafrio de vontade imensa de me lançar no vazio me tomou. Era hora de ultrapassar qualquer limite que meu corpo poderia ter experimentado até então. E o que significa "limite" pra alguém que nunca correu, pulou ou subiu escadas, mas que agora virara pássaro? Era hora de extravasar todas as mágoas, as angústias, as alegrias. Eu queria exorcisar de vez todo e qualquer sentimento impuro como num grande ritual de passagem; queria provar a mim mesma que tudo é possível quando se sonha... mais que isso: quando você se dedica em realizar o sonho. Eu não tive medo. Medo de quê e pra quê? Se você parar pra pensar em perigo, você não nasce, nem vive. Quer perigo maior do que estarmos alheios a nós mesmos? E também não lembrei das instruções de salto. Sinceramente, naquela hora eu não pensei em nada. Experimentei algo novo e fantástico. Descobri que minha alma não cabe em mim, que sou maior do que minha altura física.

Foram 47 segundos intermináveis com aquele flash do filme da minha vida rodando na cabeça. Depois foram 4 ou 5 minutos com o paraquedas aberto. Finalmente, pude tirar os óculos de proteção e eu só queria contemplar tamanha liberdade. Só a minha voz no espaço e nada pra me segurar. Eu estava ali por minha conta e risco e devia esse grande passo apenas a mim mesma. Em todo detalhe, momento bom ou num sorriso que acontece, eu penso na mesma koisa: como queria poder saltar do avião de novo... porque é essa a sensação de felicidade que ficou em mim. Todas as pessoas deveriam fazer isso, pelo menos uma vez. Caro leitor internauta, lembre-se bem de certas koisas: não importa em que condição (física, social, financeira, emocional) você se encontra, ninguém tem o direito de menosprezar seu sonho e de te impedir de seguir adiante. Somos seres livres e devemos pautar nossas relações (todas) com o mundo apenas na verdade e no prazer de "estar com". Quantas vezes temos vontade de nos lançarmos nos abismos, nas incertezas, no inesperado e desconhecido e não fazemos? Ninguém tem o direito de dizer que você não é capaz, só você determina até onde vai sua capacidade. E esse corpo de carne e osso? Só serve de veículo, o que realmente faz diferença é muito sutil e invisível aos olhos. Absolutamente tudo é efêmero, mas possível! Acredite! Porque a gente é sim do tamanho dos nossos sonhos. E eu sonho alto, literalmente.

Quero deixar meu agradecimento ao cameraman Xandy, ao meu instrutor Fábio Pombo e a toda equipe do Paraquedismo Boituva: Viviane, Julie, Rose... Valeu pelo profissionalismo, alegria e carinho com que me trataram!! Não consegui postar aqui, mas segue o link do meu vídeo no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=JGfmGN9P1ks.

Mega beijo aos meus amigos que se angustiaram, mas torceram muito por mim... além, claro, de deixar um beijão ao Mauricio Gomiero, à Vivian Carla e à Gisele Nunes, meus cúmplices diretos... mamãe espera conhecê-los em breve... hahahaha...

"E se me empurrarem do penhasco eu vou dizer: E daí? Eu adoro voar!"
(Clarice Lispector)

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Vou de táxi...

Uma das koisas mais legais que me aconteceu na última ida a Sampa foi a conversa que tive com o taxista que nos levou da Reatech até o hotel em que a Karla e eu nos hospedamos. Já era fim de tarde daquela sexta-feira. Como você pode ver na foto, entre os prédios, o sol se punha majestosamente e eu me emociono só de olhar para a paisagem concretada de São Paulo (sei lá, se vidas passadas existem, eu nasci paulistana em todas elas. Só pode!). Lembro que conversávamos sobre qualquer bobagem, provavelmente do trânsito caótico, quando o taxista - um cara, de mais ou menos, 37 ou 38 anos -, bem sem jeito, perguntou se poderia me fazer outra pergunta. Quando as pessoas me perguntam isso já sei que vem 'chumbo grosso', sei que vão perguntar algo referente à deficiência - o que, em geral, é mais constrangedor para elas perguntarem do que para eu responder... risos. Felizmente, não tenho encanação nenhuma em ter que responder qualquer tipo de pergunta sobre isso. Estou acostumada e me sinto confortável matando 'de voadora' a curiosidade alheia... risos. Eu até prefiro quando perguntam porque sei que é absolutamente normal as pessoas terem curiosidade. Eu também quero saber como são as koisas quando conheço um 'matrixiano', uai. Então respondo numa nice porque ninguém é obrigada a saber como foi, como é, como faz, etc. Além disso, quanto mais posso explicar, melhor, assim não dou margem para que as pessoas criem fantasias, mitos ou pré-conceitos. Certo?

Enfim, autorizei o cara a perguntar. O taxista, que se chamava Nilson, queria saber como foi minha infância, se me senti excluída alguma vez, etc. Achei a questão dele intrigante. Geralmente me perguntam se faço ou não tal koisa. Depois constatei que realmente havia um motivo especial para a pergunta. A filha dele é bebê, nasceu com uma doença grave de pele e ele me revelou o desejo dele (e da esposa) que a filhinha tenha uma vida normal. Então, respondi que tive uma infânia comum, sadia, que as crianças sempre queriam estar perto de mim. Inclusive, ainda tenho amigos e amigas da pré-escola. Se eu não pude pular corda, eu a rodei para que as outras crianças pulassem. Se não pude jogar vôlei, tratei de ser a juíza da partida. Se eu não pude correr e me esconder, servi para contar até 50 e gritar 'Lá vou eu!' - devagarinho, mas ia... risos. E como era bom ser criança! Gente, vamos parar de dizer por aí que as crianças são cruéis. As criancas são verdadeiras, puras e cruéis são os adultos que as ensinam a ter preconceitos. Se uma criança tem preconceito é porque um adulto introduziu esse conceito; é repetição de comportamento. Pois é, não sei se tive sorte ou o quê, mas o fato é que sempre fui tratada como os demais, apesar de ter usado orteses (os famosos aparelhos ortopédicos) até a adolescência. Até a faculdade eu fui bem paparicada. A tchurma sempre queria comprar o lanche para mim, carregar minhas pastas, etc. e ainda fiquei taxada de 'orgulhosa' por negar ajuda em algumas situações. É mole?... risos. Eu sempre dizia rindo: 'Calma, gente, não é nada pessoal, eu juro. Mas é que isso posso fazer sozinha.'. A Rubia, inclusive, quando me dava carona, parava o carro em cima da calçada da Unisantos para eu entrar com mais comodidade. E quando chovia, então? Aff, ela só faltava estacionar dentro da cantina para evitar que eu me molhasse. Eram 'micões' gostosos de pagar... risos.

Falei para o Nilson que devo toda essa jornada aos meus pais que sempre me muniram de senso de igualdade, auto-estima, responsabilidade e respeito. Minha mãe sempre conta que uma psicóloga da Reabilitação Infantil de Floripa (onde fiz fisio e hidro por muito tempo) sempre a aconselhava: 'Mãezinha, coloca sempre roupa de manga curta e bermudinha na tua filha, nunca a esconda... assim as pessoas se acostumarão com ela.'. Foi o que mamãe fez. Vai ver que foi nessa época que eu escolhi ser psicóloga... risos. Foi isso que eu disse para o taxista: como nos veem é, geralmente, como nos vemos e como nos portamos. E isso não serve só para deficiente, não. Serve para todas as pessoas. Se você se fizer de vítima, você será mesmo. Se você tem vergonha do que é, ninguém mais poderá orgulhar-se de você. Aquele trajeto da feira até o hotel durou uma eternidade. Dei meu e-mail para o Nilson, caso ele e a esposa precisassem de algo. Eu sei, eu falo mais que 'o homem da cobra', mas a vida é feita disso: de encontros... verdadeiros encontros. 

Megabeijo.

domingo, 22 de maio de 2011

Reatech 2011 - São Paulo

Karla e Karla
 Caro leitor internauta, mês passado estive novamente em São Paulo, mas dessa vez eu não estava de férias e nem sozinha. Aliás, foi a primeira vez que embarquei acompanhada. Viajei com a minha querida amiga Karla Oliveira. A Karlitcha nunca havia viajado de avião ou estado em Sampa. Foi um barato! Pensa numa pessoa divertida e autêntica. Parceirassa! Sem contar o sotaque catarinense carregado que ela levou para a 'terra da garoa'. A chará adora uma câmera digital (assim como eu), fez várias fotos durante o fim de semana da viagem, inclusive um vídeo do guri da Gol me subindo no avião ainda aqui em Floripa (http://www.youtube.com/watch?v=9pF8bk2k0bU). Achei ótima a iniciativa dela porque eu sempre só consigo tirar fotos e, dessa vez, dá para você observar como é o mecanismo da cadeira elétrica (que não dá choque e adianta um bocado a vida dos 'malacabados' que querem voar). Repare no vídeo que eu e o Hueliton mal havíamos nos conhecido e já estávamos no maior papo sobre a acessibilidade da tal cadeira. Assim que cheguei ao avião ele pediu um papelzinho para a aeromoça e anotou o nome do projeto do qual ele faz parte, a ACESA - Associação Catarinense de Esportes Adaptados. Show, né? O mais legal de viajar é encontrar pessoas, fazer contato... adoro! Logo contarei mais sobre a ACESA.

Mas o motivo que me levou a Sampa em abril foi a Reatech. Você já ouviu falar na Reatech, caro leitor internauta? Vou explicar: a Reatech é a Feira Internacional de Tecnologias para Reabilitação, Inclusão e Acessibilidade, a qual se realiza anualmente em São Paulo. Agora em 2011 o evento comemorou sua 10a. edição. Nunca fui muito ligada em entender o que era a feira e quando ela acontecia, mas nesse último ano, como estou envolvida com as questões de acessibilidade, eu não poderia perder a oportunidade de conhecer os serviços especializados em diversos segmentos (automóveis, educação, esporte, hotelaria, lazer, trabalho, etc). Além do mais, seria (e foi) uma ótima oportunidade para encontrar o pessoal 'matrixiano' com quem mantenho contato pela internet, tais como: Tabata Contri (cadeirante, atriz, modelo, linda e cheirosa), Flávia Cintra (do Fantástico), Márcio Henrique (do Pratyko), Eduardo Camara (do Blog Mão na Roda), Paula Werneck (da propaganda 'Ser diferente é normal'). Todos nas fotos abaixo.

Tabata Contri (a cheirosa)

Eduardo Camara, do Rio

Ká diz: Posso tirar uma foto com você?
Paula responde: Sim, senta aqui no meu colinho.

Flávia Cintra (do Fantástico) e Márcio Henrique (do Pratyko)


Infelizmente, não consegui encontrar a Kica de Castro (fotógrafa), o Jairo Marques (blogueiro e jornalista), o Fabinho Fernandes (o primeiro tetraplégico do mundo a saltar de páraquedas), o Billy Saga (do Movimento SuperAção), a Thaís Frota (arquiteta) e o meu amigo fofíssimo Alessandro Fernandes (o Sam, lá de BH). Mas pude conhecer pessoas bacanérrimas tipo a Márcia Gori, o Fabiano Pullmann, a Tatiana Rolim, etc. Enfim, a feira foi fantástica. Muitas entidades e empresas dedicadas a oferecer oportunidade e conforto às pessoas com deficiência. Vi tanta gente diferente (literamente) e tanta novidade para esse setor que nem sei explicar. Pena que não consegui visitar todos os stands, pois a feira era gigantesca e o tempo muito curto. Até arrisquei me inscrever nos test-drives, mas não deu tempo. E a tal da equoterapia eu também queria ter experimentado, mas desistí... a única fila para quem queria andar a cavalo estava enorme e já era a fila preferencial, só tinha 'malacabado' nela... risos... então resolvi deixar para o ano que vem. Em 2012, a Reatech acontecerá de 12 a 15 de abril. Estarei lá. Para quem quer sabr mais sobre a feira e ver fotos dessa e das edições anteriores, clica no link: http://www.reatech.tmp.br/.

Para não me estender demais nessa postagem, nos próximos posts vou continuar falando de Sampa, da acessibilidade do hotel no qual nos hospedamos e do bar que visitamos naquele fim de semana. 

Superbeijo!